Política
A prova: PT-AL no esquema de Val�rio
LUIZA BARREIROS Repórter Uma nota fiscal emitida pela Staff Vídeo e Produções, empresa de Maceió que alugou equipamentos para a campanha do então candidato a governador do PT em 2002, Judson Cabral, é a prova de que o diretório do partido em Alagoas foi beneficiado pelo esquema montado pelo publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza, apontado como principal operador do chamado ?mensalão?. A nota fiscal nº 1188, no valor de R$ 80 mil, foi emitida pela Staff em 31 de dezembro de 2002 em nome da SMP&B Comunicação ? empresa de Valério ? pela prestação do serviço de ?locação de equipamentos para produção de serviço publicitário?. Por orientação do então coordenador da campanha de Judson Cabral, Ricardo Coelho, a Staff emitiu a nota em nome da empresa mineira, que no dia 8 de janeiro de 2003 efetuou depósito bancário de R$ 80 mil na conta da Staff, quitando uma dívida total de R$ 140 mil contraída no processo eleitoral. Os outros R$ 60 mil foram pagos à Staff em 1º de outubro de 2002 e declarados à Justiça Eleitoral. Diferente da outra, a nota nº 1135, emitida em nome de Judson Cabral, fez referência à ?locação de equipamentos para produção dos programas do guia eleitoral ? campanha 2002 para rádio e TV?. Surpresa Segundo o empresário Sidney Agra, proprietário da Staff, ?nunca passou pela cabeça de ninguém da produtora? que por trás do pagamento houvesse um esquema de corrupção. ?Era praticamente impossível para nós saber isso, até porque outros candidatos também fazem pagamentos através de empresas que são doadoras de campanha?, contou. A diretora financeira da Staff, Risoleide Damasceno, conta que quando a campanha de Judson Cabral acabou ? ele foi derrotado pelo atual governador e então candidato à reeleição Ronaldo Lessa (PDT) ? e ficou o débito de R$ 80 mil, Ricardo Coelho garantiu que o valor seria pago pelo Diretório Nacional do PT. ?Depois de uma fase de negociação, em dezembro de 2002 ele [Coelho] nos procurou e passou os dados da empresa de Minas Gerais (SMP&B) para que a nota fosse emitida?, contou. Ela diz que nunca teve contato com a empresa de Marcos Valério e que toda a negociação foi feita diretamente com Ricardo Coelho. Ainda segundo Risoleide Damasceno, normalmente a agência trabalha com os pagamentos durante a campanha. ?Passada a campanha, não adianta nem cobrar. Ou paga dentro da campanha, ou não paga. Mas o PT disse que ia pagar, e pagou?, lembra. Ela disse que começou a desconfiar que o dinheiro recebido pela campanha do PT tivesse ligação com o esquema de Valério há 15 dias, quando lembrou que a nota havia sido enviada para Minas. ?Lembrei, mas acabei deixando para lá. Na terça-feira, quando o Ricardo Coelho falou que o depósito tinha sido feito na conta da empresa, nós viemos aqui à noite e constatamos que o nome era mesmo o da SMP&B?, contou. ?Tudo legal? A revelação de que o PT de Alagoas havia recebido R$ 160 mil de Marcos Valério foi feita pela diretora financeira das empresas dele, Simone Vasconcelos, numa lista entregue à Polícia Federal (PF) na terça-feira passada. Apesar da exposição e da explicação que teve que dar aos filhos por ter o nome da empresa envolvida com o ?mensalão?, Risoleide diz que dentro do aspecto legal não há nenhuma preocupação. ?Nós fizemos o serviço, emitimos nota e pagamos todos os impostos?, garantiu. ### Nota também prova caixa dois petista A nota emitida em nome da SMP&B pela Staff, que alugou equipamentos de vídeo para a campanha de Judson Cabral, também comprova que o PT de Alagoas fez uso de caixa dois na campanha de 2002, ao quitar despesas de campanha não declaradas na prestação de contas enviada ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Os R$ 160 mil recebidos da empresa de Marcos Valério também não foram declarados à Justiça Eleitoral. O caixa dois ? crime previsto no Código Eleitoral ? foi admitido na última terça-feira pelo próprio Judson Cabral, pelo presidente do diretório estadual do PT, deputado Paulo Fernando dos Santos, o Paulão, e pelo coordenador da campanha petista de 2002, Ricardo Coelho. Todos alegaram que imaginavam que o dinheiro vinha do Diretório Nacional do PT, já que, segundo eles, foi o então tesoureiro do partido, Delúbio Soares, que liberou os recursos e repassou o contato com Simone Vasconcelos (diretora financeira das empresas de Marcos Valério), responsável pelo depósito do dinheiro. Também disseram desconhecer o esquema de distribuição de dinheiro operado por Valério. Ricardo Coelho foi coordenador na campanha do PT ao governo do Estado em 2002 e sua conta pessoal foi utilizada para que o partido recebesse R$ 80 mil, metade dos R$ 160 mil depositados pelo homem apontado como o operador do ?mensalão?. O depósito para o PT de Alagoas consta na lista entregue à Polícia Federal pela diretora financeira das empresas de Valério, Simone Vasconcelos, como ?Paulão - PT do Nordeste?. Ricardo Coelho alegou que o dinheiro foi enviado para pagamento de despesas da campanha que ficaram em aberto e ?não foram contabilizadas? na prestação de contas encaminhada ao TRE. Segundo Coelho, R$ 80 mil foram depositados na conta da Staff Propaganda e os outros R$ 80 mil na sua conta pessoal, para que fossem repassados a fornecedores que, diz ele, alegaram ter ?problemas na conta corrente?. Ele também havia dito que o depósito não tinha sido feito na conta do comitê de campanha porque ela já havia sido fechada. Ontem, mudou o discurso: disse que foi a própria Simone Vasconcelos que exigiu que o depósito fosse feito em conta pessoal, porque na conta do partido ?iria caracterizar uma coisa equivocada?. Ou seja: na conta do PT, a origem do dinheiro teria que ser justificada, o que não aconteceu com o depósito na conta da Staff ? que por ser uma produtora poderia ser contratada por uma agência de publicidade de Minas ?, nem na de Coelho, que só foi descoberta após a denúncia do esquema à CPI. Gastos Ontem, Ricardo Coelho apresentou um detalhamento dos pagamentos que fez com o dinheiro recebido de Valério. Segundo ele, os R$ 80 mil depositados em sua conta em 8 de janeiro de 2003, foram utilizados para pagar débitos da campanha. Entre os beneficiários (ver quadro acima) estão uma empresa responsável pela serigrafia, os publicitários gaúchos que fizeram a campanha, a empresa que confeccionou broches das campanhas de Lula e Judson, o Diretório Regional do PT, companhias telefônicas, uma empresa de turismo, o taxista que trabalhou na campanha e o gabinete do vereador Judson Cabral, ?que foi ressarcido em R$ 17 mil de despesas efetuadas nas viagens do candidato ao interior do Estado?, segundo Coelho. Cabral disse ontem que os R$ 17 mil não foram depositados em sua conta: ?foram sacados para efetuar pagamentos da campanha?. Ricardo Coelho disse que vem sendo apontado na rua por ter recebido dinheiro do ?mensalão? e que sua preocupação maior é provar que não ficou com dinheiro. ?Ainda tive um prejuízo de R$ 246 devido ao pagamento de CPMF?, comentou. Ainda segundo Coelho, um relatório dos gastos está sendo feito por ele para ser enviado para os diretórios municipal, estadual e nacional do PT. ?Havia um clima de confiança no diretório nacional e minha preocupação era quitar débitos?, argumentou. LB ### Judson acha que Coelho não vai ser punido O vereador Judson Cabral (PT) inocentou o PT alagoano pelo aparecimento da nota fiscal da agência Staff, responsável pela produção visual da campanha eleitoral do PT em 2002, em nome da agência de publicidade SMP&B, de Marcos Valério de Souza, acusado de ser o operador do ?mensalão?. Judson disse não ser ?a pessoa mais indicada? para falar sobre o assunto, alegando que, durante a campanha, dedicou-se exclusivamente ?à parte política? e não teria tido contato com a parte financeira da campanha. Na opinião de Judson, que era o candidato do PT ao governo do Estado naquela eleição, o surgimento dessa nota fiscal não deverá complicar ainda mais a situação do delegado regional do Trabalho em Alagoas, Ricardo Coelho, que foi o coordenador da campanha de Judson e responsável pelo pagamento das dívidas de campanha, feito com o dinheiro enviado pela SMP&B. ?Na época, não havia nenhum questionamento sobre a idoneidade dessa empresa, declarou Judson. ?Ninguém conhecia a empresa nem o Marcos Valério?. O vereador se disse contra uma punição interna do PT a Ricardo Coelho. ?O Ricardo não corre risco de sofrer punições do partido. Ele não agiu de má-fé. O PT de Alagoas foi envolvido involuntariamente. O Delúbio [Soares, ex-tesoureiro do PT] deu a orientação; foi uma imposição a transação de empresa para empresa. A gente tem que ser solidário, mas fica a lição?, opinou Judson. Sem palavras A presidente do diretório municipal do PT, Cláudia Amaral, declarou ter tomado conhecimento da existência da nota fiscal da agência Staff apenas quando foi contactada pela reportagem da Gazeta, no final da tarde de ontem. ?Não sei o que dizer sobre isso?, afirmou Cláudia. Ricardo Coelho já ocupou o mesmo cargo de Cláudia Amaral no diretório municipal do PT. Cláudia Amaral também acha que a situação de Ricardo Coelho não ficará mais complicada com a apresentação da nota fiscal. ?Desde o início, os débitos da campanha foram assumidos pela direção nacional do partido. A filmagem é o mínimo para garantir a campanha. O Ricardo disse que passou o dinheiro direto para as empresas?, afirmou. A presidente do PT em Maceió, que é procuradora de Estado, acredita que Ricardo Coelho não deverá ser punido pelo PT regional. ?Se o Delúbio disse para colocar a nota em nome da SMP&B... O Ricardo achava que estava fazendo uma transferência regular com o partido. Ele já explicou como foi aplicado o dinheiro, mostrou comprovantes dos pagamentos que fez. Ele não se beneficiou de maneira nenhuma?, defendeu Cláudia Amaral. ?Ainda que essa transação tenha ocorrido de maneira irregular, eu não verifico a possibilidade do Ricardo ser punido pelo partido?, concluiu. |PV