Política
Lessa aceita estada de Beira-Mar em AL
| ODILON RIOS Repórter O governador Ronaldo Lessa (PDT) defendeu ontem a transferência para Alagoas do traficante carioca Fernandinho Beira-Mar, pedindo ?compreensão? para o problema. Lessa disse que não fará um ?cavalo de batalha? por causa da transferência do traficante, no último sábado, para a sede da Polícia Federal em Maceió. Afirmou que está ?cooperando? com o governo Lula na área de segurança pública porque tem ?problemas importantes? a resolver com o governo federal. As declarações foram feitas no fim da manhã, pouco antes de uma entrevista na TV Educativa, no Farol. ?Pensei até que ele [Beira-Mar] vinha assistir ao show da Maria Bethânia?, brincou o governador, referindo-se à apresentação da cantora baiana no fim de semana em Maceió. Lessa confirmou que soube da transferência de Beira-Mar através do secretário de Defesa Social, Paschoal Savastano, no sábado, quando o traficante já estava chegando à cidade. ?Politicamente, sim, tenho que me incomodar com a transferência, porque sei que vou ser cobrado. A sociedade não quer, ninguém quer. Por outro lado, temos que compreender que o presidente do País, o esquema de segurança nacional, não vai botar um preso no Uruguai, no Paraguai. Tem que colocar em algum Estado brasileiro. Se a gente não cooperar também, como vamos fazer??, perguntou o governador. ?A gente tem que ter compreensão. Espero que haja uma razão para que a gente não tenha sido informado, mas não vou fazer disso um cavalo de batalha. Tenho outros problemas mais importantes?, analisou. ?Acho que poderia ser feita de outra forma, se tivesse conversado conosco. Mas, não sei se por problema de segurança, era necessário deslocá-lo sem que ninguém soubesse. Teoricamente, pelas leis do país, a Polícia Federal pode fazer isso?. Sem ajuda O governador afirmou, ainda, que não irá colocar a Polícia Militar ou Civil para ajudar na segurança do traficante, na sede da PF: ?Não tenho condições?. Ele contou que reduziu o efetivo de PMs no Palácio Floriano Peixoto, Tribunal de Justiça e Ministério Público. Lessa disse que no Palácio a redução foi de 50%, no caso do Corpo de Bombeiros. ?Ele [Beira-Mar] vai ficar no subsolo de um presídio que é de muita segurança, com a responsabilidade da Polícia Federal. Já avisei ao Paschoal [Savastano, secretário de Defesa Social] que nessa crise que estamos vivendo, não me venham pedir ajuda, como policial militar e Polícia Civil para ficar dando cobertura. Não tenho condições. Estou precisando de gente na rua. Tenho seqüestro aqui, não sei o que, tem que aumentar o contingente, contratei soldado voluntário, bombeiro voluntário para poder tirar os militares e os bombeiros da parte administrativa para jogar na rua, e reduzi todo o quadro de pessoal dos poderes?. ### Cavalcante não deve mais voltar hoje Apesar de evitar polemizar sobre a volta ou não do ex-tenente-coronel Manoel Cavalcante para Maceió, o governador Ronaldo Lessa argumentou que o retorno do ex-militar, acusado de participar da gangue fardada, ?não é bom?. ?Mas não sou eu que decido, é o Judiciário. Não quero interferir porque esse não é o maior problema. Se o Judiciário decidir isso, temos obrigação de cumprir. Não quero dizer o que eles têm de fazer; eles conhecem?. O secretário de Ressocialização, Aurélio Rosendo, disse ontem, durante a Troca de Guarda no Palácio, que telefonou no fim de semana às autoridades penitenciárias de Pernambuco. ?Estamos hoje em uma situação de mais tranqüilidade. Contatos foram mantidos com a Secretaria de Ressocialização do Estado de Pernambuco, e, em face das informações obtidas, temos certeza que ele [Cavalcante] ficará por mais alguns dias em Recife?. 90 dias O pedido para que o prazo de permanência de Cavalcante no Presídio Barreto Campelo, em Recife, seja prorrogado por mais 90 dias foi feito à Justiça de Pernambuco pelo juiz da 3ª Vara Criminal, Pedro Augusto Mendonça de Araújo. Ele assumiu o processo de Execução Criminal de Cavalcante na última sexta-feira, por indicação do presidente do Tribunal de Justiça, depois que o titular da Vara de Execuções, Marcelo Tadeu, e o substituto legal dele, Roldão Oliveira Neto, se averbaram suspeitos para atuar no processo. Até a noite de ontem, o juiz Pedro Augusto ainda não havia recebido nenhuma resposta da Justiça de Pernambuco a respeito do pedido. Na Vara de Execuções Penais de Recife, a informação era de que o juiz Adeildo Nunes havia recebido o ofício, estaria analisando, mas somente hoje daria uma resposta. ?O juiz Marcelo Tadeu já havia estado com o juiz de Pernambuco para explicar a situação do nosso sistema aqui e no ofício pedi apenas a prorrogação por mais 90 dias, até que a gente possa ter uma solução definitiva para o caso?, explicou o juiz Pedro Augusto. Cavalcante deixou Alagoas em janeiro, passou por Salvador e São Paulo até ser levado, no fim de julho, para Recife. O prazo de permanência dele no Estado, prorrogado duas vezes, termina hoje. |OR (COM LUIZA BARREIROS) ### Savastano nega ter atrito com Davino O secretário de Defesa Social, Paschoal Savastano, negou a existência de um suposto atrito entre ele e o diretor-geral da Polícia Civil, Robervaldo Davino, mas deu a entender possíveis mudanças na cúpula da Defesa Social. ?A vida governamental sempre está sujeita a mudanças e todo o secretariado já convive com esse quadro?, apontou. Sobre Davino, Savastano foi econômico nas declarações: ?Não há conflito. Robervaldo Davino é o diretor geral da Polícia Civil, com um relacionamento de diálogo. Cada um na sua esfera, no seu campo de ação?. E mais uma vez em tom de mistério, emendou: ?Evidentemente, cabe ao governador operar as coisas no momento exato?. Ele confirmou que a vinda do traficante Fernandinho Beira-Mar para Maceió foi comunicada a ele no sábado, por telefone, pelo superintendente da PF, Rogério Cota. ?Depois, comuniquei ao governador?, completou. Questionado se a vinda de Beira-Mar e o possível retorno do ex-tenente-coronel Manoel Cavalcante não piorariam o quadro da segurança pública alagoana, negou: ?Não, não. A gente tem que administrar todas as situações. Beira-Mar está na Polícia Federal, Cavalcante tem uma perspectiva concreta para que permaneça no Recife e estamos aqui, através do novo secretário [de Ressocialização, Antônio Rosendo], administrando, organizando, colocando novos dirigentes e tentando normalizar a questão dos presídios, que não é fácil de superar porque é histórica?. A rápida aceitação, pelo governador, da transferência de Beira-Mar para Alagoas deve-se à tentativa de Lessa de preservar boas relações com o presidente Lula. Amanhã será depositada na conta do Estado a última cota do Fundo de Participação do Estado (FPE) de novembro. Um fantasma ainda ronda o depósito: a possível cobrança de R$ 45 milhões de uma dívida de Alagoas com a União. O presidente Lula garantiu a Lessa que resolveria a questão ?pessoalmente?, apesar de um clima de desconfiança não declarado. |OR