Política
Ex-prefeita empobrece, mas deve R$ 1 milh�o
| GILVAN FERREIRA Repórter A ex-prefeita de Palmeira dos Índios, Maria José de Carvalho Nascimento, a ?Mazé?, 69 anos, vive o maior drama de sua vida. Ela tem até o próximo dia 14 para devolver aos cofres da União uma montanha de dinheiro público - R$ 1,1 milhão (exatos R$ 1.101.296,20), valor corrigido, referente a não prestação de contas de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Mazé deixou a prefeitura em 31 de dezembro de 2000, e caiu no completo limbo político, longe dos amigos e dos eleitores, deixando para trás uma Palmeira dos Índios esburacada, endividada e mais pobre. Porém, ela jura de pés juntos que nunca desviou um centavo, e tudo que aconteceu foi uma trama armada pelos seus inimigos políticos. Hoje, Mazé vive com uma renda mensal de pouco mais de mil reais, que inclui uma aposentadoria de professora de R$ 382,31, o aluguel de um apartamento, no valor de R$ 200, e uma ajuda financeira da família de R$ 500. Conhecida como a ?mãe dos pobres?, ela vive hoje em um apartamento, no Farol, que divide com uma antiga amiga da família. Depois de 30 anos de política, que começou em 1976, ao assumir o cargo de prefeita do município de Maravilha, no alto sertão de Alagoas, a delmirense Maria José de Carvalho Nascimento mostra a outra face da atividade, que é considerada pela maioria da população como um meio de chegar ao poder e de enriquecer facilmente. BOLA DE NEVE Desde que foi condenada pelo Tribunal de Contas da União por não apresentar a prestação de contas dos recursos - que na época somavam R$ 322.708,00 - transferidos pelo Ministério da Educação, nos anos de 1997 e 1998, para a compra de merenda escolar, o montante virou uma bola de neve. Após os juros e correções, chega-se ao valor de R$ 1,1 milhão. A ex-prefeita Mazé terá de pagar ainda uma multa de R$ 50 mil. No relatório do ministro do TCU Walton Alencar Rodrigues a ex-prefeita, apesar de ter sido citada para apresentar defesa ou recolher a importância devida, ela simplesmente não apareceu. Não ofereceu defesa, tornando-se revel, ou seja, foi julgada à revelia. Sumiço de provas Na sua defesa, a ex-prefeita Mazé alega que não teve como prestar contas dos recursos do FNDE devido ao ?sumiço? de documentos e à proibição do acesso a esses mesmos documentos da prefeitura, pelo atual prefeito de Palmeira dos Índios Albérico Cordeiro. ?Eu comecei a ser perseguida desde o início da minha campanha em Palmeira dos Índios e desde o meu primeiro dia de governo. Peguei uma prefeitura em um total caos, com 11 meses de salários atrasados, muitas dívidas e constantes seqüestros das verbas da prefeitura. Não desviei e nem roubei um único centavo dos cofres da prefeitura. Os recursos que vieram foram aplicados, mas como sempre fui perseguida, tive dificuldades para administrar a prefeitura?, defendeu-se Mazé. A ex-prefeita fala de supostas perseguições e de ações dos integrantes das ?oligarquias políticas? de Palmeira dos Índios, que, segundo ela, conseguiu vencer depois de 71 anos de domínio no município. ?Eu sempre fui perseguida, isso começou ainda na campanha política, em 1996, e se agravou quando assumi o governo. Eu consegui vencer as oligarquias de Palmeira dos Índios, representadas pelas famílias Ribeiro, Sampaio, Gaia e Duarte, que dominavam o município há 71 anos. Enfrentei grandes dificuldades no meu governo. Tive problemas de toda ordem, só agora consegui ter acesso aos documentos para encaminhar minhas provas ao TCU?, explicou Mazé. ### Uma vida franciscana, longe da política Foi no apartamento simples, decorado com movéis antigos (alguns doados por parentes) e pequenas lembranças religiosas, que a ex-prefeita Mazé recebeu a Gazeta para falar sobre a sua vida política, o processo que responde no Tribunal de Contas da União (TCU), as dificuldades na administração da Prefeitura de Palmeira dos Índios, o terceiro maior município do Estado, e seu atual drama pessoal. Mazé conta que ainda criança foi adotada pelos avós, mas nunca se afastou da forte influência do pai, o coletor de impostos Manoel Carvalho, que, segundo ela, a ensinou os preceitos de moral, honestidade e honradez. Mazé, que antes de ser prefeita foi parteira, enfermeira, catequista e professora, revela que entrou na política com o princípio de que ?um cristão poderia ser um político com decência?. ?Eu sempre fui muito católica e tinha no meu coração os princípios cristãos. Sempre trabalhei para levar cidadania para as pessoas mais carentes. Foi através desse trabalho que cheguei à política, que nunca utilizei para benefício próprio. Durante esse tempo que fui prefeita, por três vezes, ajudei muitas pessoas e esqueci de mim. Hoje, para você saber, eu vivo de um salário de professora de 20 horas?, conta ela. A ex-prefeita fala com resignação das dificuldades que enfrenta atualmente e rebate as críticas de que teria se beneficiado dos recursos supostamente desviados durante a sua gestão. ?Eu tenho a consciência tranqüila de que não roubei e não fiz isso que os meus inimigos falam. O único bem que eu tenho é 50% de um apartamento no Conjunto José Tenório, na Serraria, avaliado em R$ 18 mil, fruto de uma herança?, afirma. Sobre seus períodos como prefeita dos municípios de Maravilha e Palmeira dos Índios, Mazé garante que foi responsável por avanços significativos em várias áreas nas duas cidades. ?Em Palmeira trabalhei muito, peguei a prefeitura com muitas dívidas e muitos outros problemas, mas construí mais de 25 escolas, postos de saúde, programas sociais para idosos e para as mulheres. As perseguições aumentaram ainda mais quando perdemos a deputada Ceci Cunha, que me ajudava muito lá em Palmeira. Dizem que eu deixei 11 meses de salários atrasados, que se juntaram a mais 11 do ex-prefeito Helenildo Ribeiro, mas isso não é verdade. Deixamos cinco meses de salários atrasados, mas isso tudo também foi por conta dos bloqueios?, explicou. Futuro Eleita como prefeita de Palmeira em 1996 pelo antigo Partido Solidarista Nacional (PSN), atual PHS, Mazé disse que se afastou totalmente da política partidária depois de disputar um mandato na Assembléia Legislativa. Conta ainda que não vai pensar mais em disputar qualquer cargo político, mas ser eleitora. A ex-prefeita mostrou-se pouco animada sobre as perspectivias para Palmeira dos Índios, que, segundo ela, não tem um grande futuro enquanto sobreviver unicamente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), em torno de R$ 400 mil por mês. ?Eu não vejo grande futuro para Palmeira. Enquanto não tiver renda própria, vai sempre permancer nessa crise?.