Política
Favores em troca de voto nas urnas
Desde o início da República, as relações entre a população e o poder público vêm eternizando uma intimidade considerada por estudiosos como nociva ao desenvolvimento social. A falta de políticas públicas por parte das autoridades resulta na carência da população que, mesmo atendida pelas ?migalhas? dos programas sociais, procura caminhos mais curtos para ser beneficiada. E acaba sendo aprisionada pela rede do clientelismo, que lhe cobra o voto como garantia de uma mão estendida pelo poder público. ### Bujão de gás, remédio, comida: vale tudo, menos projetos | Gilvan Ferreira Repórter Nas tardes de terças, quartas e quintas-feiras, as escadarias, os corredores e parte do auditório (transformado em galerias) do centenário prédio da Associação Comercial, em Jaraguá, onde há nove meses funciona o Poder Legislativo de Alagoas, viram espaços perfeitos para a população manter contato com os seus 27 representantes no Parlamento alagoano. A maior parcela de populares que vai à Assembléia Legislativa não está interessada nos projetos que tramitam na Casa ou nas discussões entre os parlamentares. ### De emprego a aperto de mão | Davi Soares Repórter O prédio da Prefeitura de Maceió, em Jaraguá, não tem nenhum letreiro indicando que ali funciona o Executivo Municipal. Mas a população sabe onde encontrar o prefeito Cícero Almeida (PP) quando a necessidade aperta. Na prefeitura, uma estrutura teve de ser montada com uma sala e um funcionário comissionado contratado exclusivamente para dar encaminhamento aos mais de 30 pedidos que chegam diariamente, fora os telefonemas. Os atendimentos ocorrem das 8h às 14h e duram de 10 a 15 minutos por pessoa. ### Auxílio disfarçado e profissionalismo Patrícia Bastos Repórter A Praça Deodoro não é local de negócios apenas para comerciantes e ambulantes estabelecidos por ali. O lugar, que sempre está fervilhando de gente e veículos, também é ponto para as pessoas que buscam algum tipo de ajuda junto aos políticos. A entrada da Câmara Municipal de Maceió é apelidada de ?corredor polonês?, por alguns parlamentares, enquanto para os pedintes bem que poderia ser a ?porta da esperança?. Entre o espaço de descer do veículo na calçada até chegar ao plenário, a maioria dos vereadores tem de ouvir histórias de lamentos, que vão desde os filhos que estão passando fome em casa porque não há dinheiro para o gás, até o pai que está morrendo no interior, como desculpa para pedir dinheiro para passagens e remédios. ### Assédio no Parlamento incomoda Conhecido pela sua atuação na zona sul de Maceió, o deputado estadual Marcos Barbosa (PPS), que já ocupou o cargo de vereador, sabe como capitalizar votos utilizando o trabalho de assistência social. Morador do bairro da Ponta Grossa, uma das áreas mais carentes da capital, Barbosa revelou que utiliza parte do seu salário de R$ 9.600,00 para atender aos eleitores, que batem à porta da sua residência e no seu escritório, localizados no mesmo bairro em que mora, e na Assembléia Legislativa. O deputado garante que evita dar dinheiro e coloca limites para as pessoas que o procuram na Assembléia Legislativa. GF ### Clientelismo: um caminho sem volta De acordo com a cientista política Belmira Magalhães, doutora em Análise do Discurso pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o clientelismo se originou na forma como o Estado brasileiro escolhia seus servidores públicos desde o início da República. Ela afirma que, por não existir concursos públicos, todos precisavam estar próximos de alguma autoridade para ser indicado aos empregos. Uma das prováveis origens do termo clientelismo está no fato de que muitos dos patrões eram formados nos dois primeiros cursos do País e eram médicos ou advogados. DS ### Pedidos extrapolam limites A relação interpessoal entre a população e o político muitas vezes extrapola alguns limites do papel do representante do poder público. O prefeito Cícero Almeida, por exemplo, segundo seu assessor, é procurado por eleitores que pedem conselhos sentimentais e intervenções para salvar casamentos. ?Tem gente que chega pra mim e diz: ?Eu queria que o Cícero Almeida desse um jeito no meu marido e no meu casamento?. Isso acontece por causa do lado humano dele. Às vezes o cidadão entra aqui e diz: ?vim só te ver!?, e vai embora?, lembrou o assessor de atendimento ao público da prefeitura, Fernando Silveira. ///