Honraria
Câmara homenageará um dos primeiros a denunciar crimes ambientais da Braskem
Proposta concede ao engenheiro e professor Abel Galindo comenda mais antiga do Legislativo municipal


Em sessão virtual marcada para esta quinta-feira (28), com início previsto para as 10h, a Câmara Municipal de Maceió deve aprovar, em segunda discussão, a outorga da Comenda Desembargador Mário Guimarães ao engenheiro civil e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Abel Galindo.
A honraria, considerada uma das mais antigas e prestigiadas do Legislativo municipal, será concedida como forma de reconhecimento ao legado acadêmico e social do professor, além de sua atuação decisiva na denúncia dos impactos causados pela mineração da Braskem, em Maceió.
A proposta de homenagem foi apresentada pelo presidente da Casa, vereador Chico Filho (PL), que destacou a importância de Galindo não apenas como educador, mas como cidadão comprometido com o bem público.
“Quem estudou Engenharia na Ufal nos últimos 30 anos conhece bem o professor Abel Galindo: excelente professor, um ser humano notável, um dos primeiros que alertaram sobre os problemas causados pela instalação da Braskem e a exploração de sal-gema em Maceió”, ressaltou Chico Filho.
A proposta de concessão da comenda já havia sido aprovada em primeira discussão por unanimidade, na última terça-feira (26), durante sessão plenária virtual que também votou 37 indicações e 20 projetos de Lei e Decretos Legislativos. Todos os projetos foram aprovados sem objeções, reforçando o consenso entre os 24 parlamentares presentes quanto à relevância das pautas em votação.
Durante a defesa da proposta, Chico Filho destacou que Abel Galindo é reconhecido nacionalmente por sua atuação técnica e crítica diante dos desastres ambientais provocados pela mineração da Braskem. “Ele é destaque também na luta contra os desmandos da Braskem na cidade de Maceió”, afirmou.
O parlamentar também ressaltou o papel social desempenhado por Galindo, que doou um terreno no bairro da Cambona para a construção da Instituição Escolar Lagoa Mundaú, que atende, em tempo integral, 150 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
O professor Abel Galindo, ao saber da homenagem, declarou que o projeto educacional é uma de suas maiores alegrias. “Este é um projeto que me dá muita alegria e garante educação e assistência às crianças matriculadas em tempo integral”, afirmou.
PESQUISA
O engenheiro, que atua há 50 anos na profissão, acompanha os impactos da mineração desde 2010 e, com base em suas pesquisas, alertou sobre a relação entre os abalos registrados em Maceió e as atividades da Braskem, bem antes de a crise ganhar repercussão nacional.
Em março de 2018, após o registro de um tremor de 2.4 na escala Richter em Maceió — algo inédito na capital alagoana —, Galindo confirmou suas suspeitas de que o fenômeno estava ligado à atividade mineradora. Em uma reunião no Crea/AL, apresentou dados técnicos a uma plateia de engenheiros. Na ocasião, quatro colegas chegaram a discordar, isentando a Braskem.
“Participei da construção de 95% das fundações dos prédios de Maceió e minhas pesquisas confirmam a relação entre as rachaduras e a mineração da Braskem”, reforçou.
O impacto ambiental provocado pela mineradora já levou à evacuação de mais de 60 mil moradores dos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e um trecho do Farol. O novo Plano Diretor de Maceió prevê que essas áreas permaneçam sob observação permanente da Defesa Civil e não poderão ser reocupadas. Segundo o IBGE, a área afetada corresponde a 0,58% do território da capital, mas técnicos e moradores contestam a estimativa.
Apesar do fechamento previsto das 35 minas operadas pela Braskem até 2026, especialistas alertam que o risco de subsidência continua. A Defesa Civil classifica a situação como de colapso e, mesmo com o preenchimento das cavidades subterrâneas, persiste o risco de afundamentos. A recomendação atual é de que a área não seja reocupada para preservar a segurança da população.
A Braskem afirma que segue atuando por meio do Programa de Compensação Financeira (PCF), que já realizou mais de 19 mil propostas de indenização, com taxa de aceitação de 99,9%. Segundo a empresa, já foram pagos mais de R$ 4 bilhões em compensações. No entanto, em julho deste ano, a Defensoria Pública Estadual ajuizou nova Ação Civil Pública no valor de R$ 4 bilhões, cobrando reparações pela desvalorização de 22 mil imóveis no entorno das áreas críticas.
PAUTA DA CÂMARA
Ainda na sessão desta quinta-feira, os vereadores devem votar, em segunda discussão, o projeto do vereador Brivaldo Marques (PL), que propõe uma política municipal de prevenção e combate à dependência das apostas esportivas.
Durante a primeira votação, Chico Filho criticou duramente a proliferação dessas empresas, classificando-as como uma “praga que corrói a sociedade”. O projeto também foi aprovado por unanimidade e, se confirmado em segunda discussão, seguirá para sanção do prefeito João Henrique Caldas (PL).