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Povos originários

Demarcação Xucuru-Kariri vira caso de polícia e polariza debate político

Processo de reconhecimento territorial mobiliza indígenas, agricultores, partidos e autoridades

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Processo de demarcação das terras de indígenas, em Palmeira dos Índios, tem gerado tensão com os produtores rurais que ocupam parte das terras reivindicadas
Processo de demarcação das terras de indígenas, em Palmeira dos Índios, tem gerado tensão com os produtores rurais que ocupam parte das terras reivindicadas | Foto: Adriano Arantos

A disputa pela demarcação da terra indígena Xucuru-Kariri, em Palmeira dos Índios, transformou-se em um dos temas mais explosivos da política alagoana.

O processo, considerado irreversível pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), deixou de ser uma pauta técnica e passou a dominar o debate público, mobilizando agricultores, fazendeiros, partidos políticos, órgãos federais e lideranças indígenas.

O impasse chegou à esfera policial, após decisão da Justiça Federal determinar que a Polícia Militar de Alagoas garanta segurança às equipes da Funai durante o levantamento fundiário e o cadastramento das ocupações não indígenas na área.

A juíza Adriana Hora Soutinho de Paiva, da 8ª Vara Federal, atendeu a pedido do Ministério Público Federal (MPF) e fixou prazo até essa sexta (24 de outubro de 2025) para a conclusão dos trabalhos de campo. A decisão reconhece o poder de polícia da Funai e autoriza a entrada dos servidores em imóveis dentro da área demarcada, desde que os ocupantes sejam notificados previamente, conforme previsto na Lei nº 14.701/2023.

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A determinação ocorre em meio a um ambiente de crescente tensão no município, onde vivem cerca de 3.500 indígenas distribuídos em nove comunidades Xucuru-Kariri. Agricultores e proprietários rurais da região afirmam estar sendo intimidados por ações de servidores federais e acusam a Funai de falta de transparência e de “abordagens intempestivas” durante o processo.

AUDIÊNCIA

No início do mês, a Câmara Municipal de Palmeira dos Índios promoveu uma audiência pública sobre o tema, convocada pelo vereador Lúcio Carlos Medeiros e acompanhada por outros vereadores. O encontro reuniu produtores rurais, lideranças comunitárias e representantes de entidades locais. Agricultores relataram temer a perda de propriedades produtivas e criticaram o que chamam de “avançar da Funai sobre terras legítimas”.

Como encaminhamento, foi criado um fórum permanente de resistência à demarcação, com o objetivo de articular estratégias políticas e jurídicas para tentar suspender as ações federais. O movimento conta com apoio de pequenos e médios produtores, que alegam ocupação das terras “há décadas”.

Em meio à escalada de discursos, o ex-deputado estadual Edval Gaia Filho, que possui terras na área de demarcação, reacendeu a polêmica ao propor que se retire o nome “dos Índios” do município. “Precisamos solicitar à Assembleia Legislativa que se retire o nome de Palmeira dos Índios. Esse nome só tem nos atrapalhado”, afirmou. A declaração foi criticada por historiadores e lideranças indígenas, que classificaram a proposta como “apagamento cultural e desrespeito à memória histórica” da cidade, cuja relação com os povos originários é registrada desde o período colonial e retratada em obras de Graciliano Ramos, ex-prefeito do município.

O tema também entrou na pauta partidária. O Partido dos Trabalhadores de Alagoas (PT) divulgou nota de solidariedade ao líder indígena Tanawy Kariri, que teria recebido ameaças por defender a continuidade da demarcação. O texto afirma que as intimidações são “ataques à democracia e aos direitos humanos” e reforça que a luta indígena é “legítima, justa e constitucional”.

Na direção oposta, o Solidariedade Alagoas, presidido por Adeilson Bezerra, divulgou nota oficial pedindo a revisão imediata do processo. O partido argumenta que há “falta de transparência e inconsistências técnicas” nos estudos da Funai e alerta que a medida pode comprometer o “direito de propriedade e a segurança jurídica de pequenos produtores rurais”.

Bezerra afirmou que “a demarcação não pode gerar novos bolsões de miséria” e destacou que mais de 460 propriedades seriam afetadas, a maioria com menos de 10 hectares.

A Prefeitura de Palmeira dos Índios também se manifestou oficialmente. Em nota, a gestão municipal declarou que acompanha “com atenção e responsabilidade” o processo, defendendo o diálogo e o respeito a todas as partes. O texto condena o uso de policiais armados em propriedades rurais e urbanas e pede “cuidado e cautela” durante as ações federais, especialmente diante de famílias com idosos e pessoas doentes.

O município calcula que cerca de 10 mil pessoas vivem na área sob disputa, das quais 2,5 mil são pequenos agricultores e trabalhadores rurais com registros de produção e documentos fundiários. A prefeitura defende que, em caso de demarcação, haja indenizações justas, levando em conta o valor real das propriedades atingidas.

REAÇÃO

Em resposta às críticas e desinformações, o líder Tanawy Kariri publicou vídeo nas redes sociais explicando os critérios legais da autodeclaração indígena, conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ele esclareceu que o reconhecimento como indígena não depende da Funai ou da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), mas sim da própria comunidade. “Não é qualquer pessoa que vai chegar e dizer: ‘Sou indígena Xucuru-Kariri’. É preciso ter vínculos sanguíneos, culturais e comunitários. A comunidade é quem reconhece”, afirmou.

Tanawy classificou como “mentira” as alegações de que pessoas de fora estariam sendo reconhecidas indevidamente como indígenas. Ele defendeu a continuidade do processo de demarcação e pediu respeito ao direito dos povos originários.

Na quinta-feira (23), o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Alagoas e Sergipe realizou uma Oitiva Qualificada em Palmeira dos Índios, reunindo lideranças indígenas, representantes institucionais e autoridades para discutir o tema. O encontro foi descrito como um “momento de escuta e construção coletiva” e faz parte da tentativa de mediar o diálogo entre os povos tradicionais e as comunidades não indígenas afetadas.

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