Mobilização
Cúpula dos Povos traz demandas e reivindicações da sociedade à COP30
Evento paralelo iniciado ontem reúne indígenas, ribeirinhos, quilombolas e movimentos sociais
Cerca de 200 embarcações coloriram a Baía do Guajará, em Belém (PA), na manhã de ontem, marcando o início simbólico da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30 que reúne indígenas, ribeirinhos, quilombolas e movimentos sociais de todo o país — e até representantes internacionais, como palestinos.
A barqueata, que durou cerca de quatro horas, abriu a programação do encontro, que se estenderá até o dia 16. Com faixas e palavras de ordem como “Amazônia protegida” e “Sem justiça climática e educacional, não há COP que salve o planeta”, os manifestantes denunciaram o avanço de grandes projetos de infraestrutura — hidrovias, portos, ferrovias e mineração — sobre territórios tradicionais.
Entre os alvos de crítica, estiveram o projeto da ferrovia Ferrogrão, a expansão do agronegócio na BR-163 e a instalação de mineradoras em terras indígenas. “Não existe legislação que autorize mineração em território indígena”, lembrou o professor William Mura, representante de povos do Amazonas e Rondônia.
A Cúpula dos Povos ocorre de forma autônoma à conferência oficial, como espaço de resistência e de contraponto às negociações entre governos. A mobilização foi organizada por mais de 40 entidades e movimentos, entre elas Amazon Watch, GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental, Instituto Raoni e Movimento Tapajós Vivo. A Aliança Chega de Soja, responsável pelo ato, nasceu da campanha “Ferrogrão Não”, que denuncia os impactos da ferrovia EF-170 e das hidrovias do Arco Norte.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) estima a presença de mais de 2,5 mil indígenas em Belém, representando etnias como Kayapó, Panará, Tupinambá, Arapiuns, Munduruku, Borari e Mura. Muitos chegaram na Caravana da Resposta, que partiu do Baixo Tapajós levando agricultores, comunicadores e lideranças populares.
O clima de protesto e celebração se misturou ao som do carimbó e ao colorido das bandeiras. “A luta é pela vida, pelos territórios e por uma nova visão de infraestrutura — centrada nas pessoas, e não nos lucros”, resumiu Charbel, erguendo o punho entre os barcos que abriram, nas águas de Belém, a Cúpula dos Povos.
MARCHA
À tarde, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, liderou uma marcha de indígenas na tarde desta quarta-feira (12) dentro da Zona Azul, espaço onde ocorrem as negociações oficiais da COP30, em Belém, e onde têm acesso apenas pessoas credenciadas, como delegações e imprensa.
O ato chamou atenção por acontecer um dia depois do protesto de organizações da sociedade civil e lideranças indígenas que tentou furar o bloqueio de acesso à área restrita. O grupo foi contido e expulso pela Polícia da ONU, responsável pela segurança do evento. Após o tumulto, ocorrido no fim do segundo dia da conferência, a entrada principal da COP foi reforçada.