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ELEIÇÃO EM ABERTO

O dilema de Lula, a peça que pode mudar o jogo

Diferencial de Renan Filho no governo Lula vai além da gestão

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As peças continuam dispostas sobre o grande tabuleiro do poder. Nada está definido, nada está garantido. O ambiente no entorno do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é de tensão silenciosa, cálculos refinados e arrumações discretas. A eleição não está ganha, e essa é a primeira premissa que orienta cada movimento do Palácio do Planalto. Mesmo com a direita dividida em múltiplas lideranças, vaidades e projetos concorrentes, ninguém no núcleo duro lulista trabalha com a hipótese de vitória antecipada. Ao contrário: o sentimento é de alerta permanente.

A política brasileira ensina que fragmentação não significa derrota. A direita pode se apresentar pulverizada agora, mas sabe se reagrupar quando enxerga risco real de exclusão do poder. Pode surgir um nome competitivo, pode haver convergência de interesses no segundo turno, pode-se construir uma narrativa de desgaste econômico ou institucional. Lula sabe disso. Já enfrentou ondas contrárias, venceu disputas improváveis e também foi derrotado quando o cenário parecia favorável. A experiência lhe ensinou que a soberba custa caro.

O governo monitora números diariamente: inflação dos alimentos, percepção de renda, geração de empregos, humor do mercado, relação com o Congresso e ruídos institucionais. Tudo entra na equação. O eleitor brasileiro, em sua maioria, vota com a razão prática: quer estabilidade, quer melhora concreta, quer sentir que a vida avançou um degrau. Não basta discurso ideológico; é preciso entrega palpável.

É nesse contexto que surge um movimento capaz de alterar o equilíbrio do tabuleiro: a possível saída do Ministro Renan Filho do Ministério dos Transportes para disputar o governo de Alagoas. A decisão, ao que tudo indica, conta com a concordância de Lula e tem objetivo político claro: fortalecer o palanque estadual e puxar a reeleição do senador Renan Calheiros. Estratégia regional legítima. Mas, nacionalmente, o movimento provoca apreensão.

Renan Filho não é apenas mais um ministro. Transformou o Ministério dos Transportes em uma das vitrines de execução do governo. Sob sua condução, houve aceleração significativa na retomada de obras paralisadas, ampliação de investimentos por meio do novo PAC e reorganização de contratos considerados problemáticos. A duplicação e modernização de trechos da BR-101 no Nordeste, os avanços na BR-116 e na BR-381, a consolidação de etapas da Ferrovia Norte-Sul e a ampliação de investimentos em recuperação de pontes e rodovias estratégicas recolocaram a pasta no centro da agenda do desenvolvimento.

Além das obras físicas, houve reorganização administrativa, maior diálogo com governadores e prefeitos e uma presença política ativa nos estados. O ministério passou a simbolizar eficiência e capacidade de resposta rápida, algo raro em governos pressionados por críticas diárias.

Mas o diferencial de Renan Filho vai além da gestão. Ele se tornou um dos ministros mais aguerridos do governo. Comunicativo, combativo e articulado, não deixa ataque sem resposta. Confronta adversários com dados, rebate críticas com segurança e ocupa espaço nas redes e na imprensa. Dentro da equipe, é visto como um dos que mais defendem o governo em momentos de turbulência. Sua avaliação é alta, especialmente no Nordeste, onde tem capilaridade e trânsito político consolidados.

E aí reside o dilema central: como candidato a governador, sua atuação se concentrará em Alagoas. A energia será local. A campanha exigirá presença permanente, negociações regionais e enfrentamento direto de adversários estaduais. Lula, porém, precisa de quadros nacionais que circulem pelo País, defendam o governo em cada estado e consolidem alianças estratégicas, principalmente no Nordeste, região decisiva para qualquer projeto presidencial.

Ao mesmo tempo, sua permanência no ministério cria incerteza em Alagoas. No cenário atual, dentro do campo governista, apenas o nome de Renan Filho é visto como capaz de vencer com relativa segurança a disputa estadual. Sua eventual ausência na corrida ao governo poderia fragmentar forças locais e comprometer o projeto de reeleição de Renan Calheiros ao Senado. O cálculo é delicado: preservar a peça nacional ou garantir o xeque regional?

A reforma ministerial que se aproxima transforma essa decisão em ponto nevrálgico. Não se trata apenas de trocar um titular de pasta; trata-se de redefinir o equilíbrio entre estratégia nacional e consolidação estadual. Cada escolha terá reflexos diretos na engenharia eleitoral de 2026.

Brasília observa em silêncio. Aliados opinam nos bastidores. O Congresso especula. A oposição acompanha, pronta para explorar qualquer fissura. O tabuleiro está montado, as peças estão vivas e cada movimento pode alterar o desenho final da disputa.

No fim das contas, trata-se de uma decisão solitária. A política é coletiva na aparência, mas estratégica na essência. E, nesse caso específico, só um jogador tem autoridade e visão ampla para decidir qual peça mover, qual sacrificar e qual preservar.

O xeque-mate ainda está distante. Mas a jogada que pode definir o ritmo da partida está sobre a mesa.

E ela depende, exclusivamente, de Lula.

Este artigo foi escrito em Brasília, após visita a um amigo no Palácio do Planalto.

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