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A ILUSÃO DA PAZ

‘Si vis pacem, para bellum’

(Se queres a paz, prepara-te para a guerra)

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O Brasil construiu, ao longo de décadas, a imagem de uma nação pacífica, diplomática, avessa a aventuras bélicas e orgulhosa de resolver conflitos pela palavra e não pelas armas. Essa tradição é virtuosa e faz parte da nossa identidade histórica. Mas ela foi, aos poucos, confundida com descuido, desleixo e quase abandono da defesa nacional. Hoje, o país que possui dimensões continentais, riquezas estratégicas, fronteiras extensas, uma Amazônia cobiçada e um Atlântico Sul cada vez mais valorizado geopoliticamente investe migalhas em suas Forças Armadas, como se a soberania fosse um detalhe secundário, algo que não rende votos e, portanto, não merece prioridade orçamentária.

Não se trata de opor defesa a políticas sociais. Ninguém em sã consciência é contra investimentos em saúde, educação, combate à fome ou proteção aos mais vulneráveis. O erro está em imaginar que soberania e segurança nacional são luxos supérfluos em um mundo cada vez mais instável. A história mostra, de forma cruel, que países despreparados pagam caro quando o cenário internacional se deteriora – e ele está, sem dúvida, se deteriorando.

Vivemos um tempo de ressurgimento de projetos imperialistas, de líderes autoritários com delírios de grandeza e de potências dispostas a impor sua vontade pela força. A retórica beligerante voltou a ocupar palanques, parlamentos e quartéis. A ameaça à Groenlândia, as tensões permanentes no Oriente Médio, a escalada contra o Irã, a guerra no Leste Europeu e a instabilidade crônica em diversas regiões demonstram que a ordem internacional está longe de ser um terreno sólido.

Soma-se a isso a crise venezuelana, que, embora muitas vezes tratada como problema local, carrega interesses geopolíticos muito maiores do que os discursos oficiais admitem. Não é apenas Maduro, não é apenas um governo em colapso: há potências em disputa, há petróleo, há posições estratégicas e há influência continental em jogo.

Nesse contexto, acreditar que o Brasil pode se dar ao luxo de permanecer com uma estrutura de defesa sucateada, com projetos estratégicos constantemente adiados e com orçamento comprimido, é uma perigosa ilusão. A paz não se garante apenas com boas intenções. Ela se sustenta também com capacidade de dissuasão, com inteligência, com tecnologia e com Forças Armadas respeitadas e preparadas. Defesa não é sinônimo de guerra; é, antes de tudo, garantia de que a guerra não nos será imposta.

Um país que não cuida de sua defesa abre mão, pouco a pouco, de sua autonomia. Torna-se dependente, vulnerável, refém de interesses externos. Sua diplomacia perde peso quando não é respaldada por capacidade real de proteção de seu território, de suas riquezas e de seu povo. Não se trata de desejar conflitos, mas de estar pronto para que eles não nos alcancem de forma humilhante e irreversível.

O Brasil precisa, mais do que nunca, reencontrar o sentido estratégico de nação. Precisa compreender que soberania não é apenas um conceito bonito nos discursos oficiais, mas uma construção concreta, que envolve investimento contínuo, planejamento de longo prazo e compromisso suprapartidário. A defesa da pátria não pode ser refém de ciclos eleitorais, de populismo fiscal ou de miopia política. É uma política de Estado, não de governo.

Preparar-se não é provocar. Fortalecer-se não é ameaçar. Unir-se em torno da defesa nacional é, sobretudo, afirmar que esta bandeira, este território e este povo não estão à mercê de aventuras imperiais nem de líderes desequilibrados que sonham com poder global a qualquer custo.

O Brasil não precisa da guerra, mas precisa, urgentemente, estar pronto para defender a sua paz.

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