loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 28/03/2026 | Ano | Nº 6190
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

UM GRITO POR MUDANÇA

A crueldade que mata duas vezes

Ouvir
Compartilhar

No dia 10 de julho de 2023, a delegada Amanda Souza saiu de casa para trabalhar como em qualquer outra manhã. Antes, recebeu uma mensagem: “Seu futuro será de tristeza e solidão.” Horas depois, às 16h, o telefone tocou. Do outro lado da linha, a sentença mais brutal que uma mãe pode ouvir: “Parabéns, você conseguiu o que queria: eu matei os seus dois filhos”.

Não era uma ameaça. Era a consumação de uma vingança. Amanda tornou-se vítima da chamada violência vicária, quando o agressor atinge os filhos ou pessoas próximas com o único propósito de ferir emocionalmente a mulher. Não é impulso. Não é descontrole. É cálculo. É a decisão fria de usar a vida de crianças como instrumento de punição.

O horror se repetiu recentemente em Itumbiara (GO). O então secretário de Governo do município, Thales Machado, atirou contra os dois filhos dentro de casa e, em seguida, tirou a própria vida. Um menino de 12 anos morreu antes de qualquer socorro. O irmão, de 8, resistiu por algumas horas no hospital. Não resistiu à crueldade.

Dois casos. Dois massacres íntimos. Um mesmo padrão. E, como se o sangue não bastasse, veio o segundo assassinato: o moral. Nas redes sociais, comentários responsabilizavam a mãe. Falava-se em suposta traição. Buscava-se uma justificativa. Como se o adultério – real ou imaginado – fosse atenuante para executar os próprios filhos. Como se a honra masculina ferida autorizasse o extermínio. Como se o sofrimento de uma mulher fosse moeda de vingança.

É aí que a violência vicária revela sua face mais perversa: ela não termina no disparo. Ela continua na cultura que tenta explicar o inexplicável. Continua na sociedade que relativiza o crime quando o autor é homem e a vítima é mulher. Continua no coro machista que transforma o assassino em “pai desesperado” e a mãe enlutada em suspeita.

O Brasil registra números alarmantes de feminicídio. Em 2025, foram 1.518 mulheres assassinadas por razões de gênero – quatro por dia. Quatro. Ainda assim, há quem busque dividir culpas quando o agressor é homem e a vítima é mulher. Há quem enxergue provocação onde houve crime. Há quem tente racionalizar o irracional.

A violência vicária não é desespero. É domínio. É a extensão máxima da lógica patriarcal que diz: “Se você não é minha, ninguém será – nem mesmo nossos filhos.” O agressor não aceita perder o controle sobre a mulher e, ao perceber que não pode mais controlá-la diretamente, decide destruí-la pelo ponto mais sensível: o amor materno.

Não há nada de passional nisso. Há estratégia. Há intenção. Há o desejo deliberado de causar sofrimento permanente. Não se pode aceitar que comentários virtuais funcionem como tribunal paralelo que absolve o agressor e condena a vítima. Não se pode admitir que a honra masculina continue sendo tratada como bem jurídico superior à vida de crianças. Não se pode tolerar que a maternidade seja usada como arma contra a própria mãe. Porque a sociedade que culpa a mãe é cúmplice do silêncio que protege o agressor.

O debate que hoje ganha corpo no Senado Federal sobre a tipificação e o enfrentamento da violência vicária não é apenas oportuno – é urgente, tardio e absolutamente necessário. Trata-se de reconhecer juridicamente aquilo que já está escancarado na realidade: há homens que, incapazes de aceitar o fim de uma relação, transformam os próprios filhos em instrumentos de tortura emocional contra a mulher.

A proposta em discussão rompe com a cegueira histórica que tratou esses crimes como tragédias isoladas ou surtos momentâneos. Não são. São expressão de poder, de controle e de uma cultura que ainda naturaliza a violência quando ela serve à lógica da posse masculina.

Tipificar a violência vicária é dar nome ao horror – e dar nome é o primeiro passo para punir, prevenir e proteger. É retirar da invisibilidade uma prática que sempre existiu, mas que muitas vezes foi diluída em narrativas de “crime passional”, “desespero” ou “loucura momentânea”.

Mas a lei, por si só, não basta. É preciso que o Estado avance em políticas públicas, em proteção efetiva às mulheres e crianças, em capacitação das forças de segurança e em uma mudança cultural profunda. É preciso que o Judiciário compreenda a gravidade específica desses casos. E, sobretudo, é preciso que a sociedade deixe de ser cúmplice.

Porque, enquanto houver quem relativize, explique ou justifique, o ciclo continuará. A violência vicária começa muito antes do disparo, na ideia de que alguém pode possuir alguém. E só terminará quando essa ideia for definitivamente sepultada. O que está em jogo no Senado é a afirmação de um princípio civilizatório básico: nenhuma dor masculina pode jamais ser maior que a vida de uma criança.

Relacionadas