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BELFEGOR À ESPREITA

As Máscaras de Belfegor

O demônio da preguiça é mais forte depois do almoço; exorcize-o com café

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Imagem ilustrativa da imagem As Máscaras de Belfegor
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Bateu aquela moleza após o almoço? Tem coisas para fazer e procrastina? Fez um jantar e deixou a louça para amanhã? Acordou no domingo e ficou enrolando na cama até o almoço? Pulou um dia da academia? Você seria preguiçoso? Talvez não. A culpa pode ser de um tal de Belfegor.

Cada pecado mortal tem um demônio correspondente. A preguiça é amparada e inspirada por Belfegor. Ele ataca as fracas almas humanas e empurra os corpos para a inação, o adiamento, a falta de foco e o desleixo. Sua ação é a de todo ser infernal: não assusta, seduz; não ameaça, aponta deleites. Ele não diz que você deve dormir mais por ser um vagabundo; apenas sussurra no seu ouvido que você tem se esforçado demais e merece uma pausa. “Dorme mais, tigrão.” Ele relembra pesquisas que mostram a importância das pausas e te conduz ao celular como alavanca de adiamento cíclico. Psicanalítico, ele insinua que lavar a louça imediatamente era como sua mãe fazia e você é mais livre do que ela jamais foi. Atualizado, ele adverte sobre burnout. Tenta “proteger” você. Ele te ama na horizontal.

Belfegor não enfrenta. É um vendedor nato, anela sua entrega. Sua tática é a vaidade, o primeiro erro, a base da sua e da minha fragilidade. O demônio da preguiça é seu relações-públicas: sempre encontra uma explicação para sua incapacidade de agir naquele momento.

O príncipe infernal age muito. Há máscaras sutis. O pessimismo estrutural disfarça preguiça. Todo esforço tende a se perder no tempo. O banho perderá a validade, a cama arrumada será desfeita, o zelo com a saúde esbarrará na doença e na morte, o que aprendi será esquecido... A cada parto laboral corresponde um óbito.

Se há um fracasso inevitável após todo gesto de edificação, por que fazer? A preguiça é feia como a inveja, melhor fazer discurso esvaziador do vazio de todas as coisas. Ser niilista é mais chique do que a vagabundagem. Ironiza-se a esperança porque ela implica disposição e pode anteceder a ação. É o olhar do velho atendente do setor ao ver o jovem repleto de energia querendo mudar tudo. “Em dois anos, estará esgotado”, comenta. A luz entusiasmada de alguns traz mais sombra para a preguiça de outros. Belfegor sorri.

A máscara de “nada adianta” ou “tudo dará na mesma” oculta o fato de que não arrumo minha cama para que assim fique até o esgotamento total da energia do cosmos. Arrumo para ordenar meu pensamento. Não tomo banho para que eu esteja perfumado até o dia do meu enterro. Eu o faço pela sensação positiva de bem-estar que me acompanhará por um dia ou algumas horas. Nada é permanente porque eu não sou permanente. Tudo precisa ser refeito e a preguiça encontra discursos elaborados para esvaziar meu impulso. Belfegor pede minha capitulação diante da vida em si, não apenas do trabalho. Existo por um esforço diário e contínuo de me insurgir contra o caos, a sujeira, a desordem, a ignorância e a capitulação biográfica. Salvo casos de depressão grave, a ação é uma decisão dura e constante que eu tomo a cada minuto diante do qual eu continuo escrevendo aqui e não vou verificar mensagens no meu celular. Sim, a outra máscara de Belfegor é a multitarefa, pois eu posso tornar alguém inútil pela falta ou pelo excesso. Um ser humano parado olhando o teto é tão útil ao propósito infernal quanto o que se agita furiosamente fazendo tudo ao mesmo tempo.

Belfegor se orgulha da notificação do celular, sua invenção mais sofisticada para impedir o crescimento.

Por excesso ou por falta, por “pensamentos e palavras, atos e omissões”, se sedimenta a rodovia arquitetada por Belfegor. O demônio da preguiça vence vagabundos e empreendedores por impedir ou diluir o foco. E, como vimos, sempre pela sedução doce de indicar o melhor para você.

Qual o exorcismo eficaz. Primeiro, saber o nome do espírito imundo. Jesus ensinou que devemos perguntar como se denomina aquilo que me invade. Freud foi pelo mesmo caminho. O austríaco tinha cuidado também em encarar o que estava bloqueado. Exemplo: sem máscaras, jamais disfarçar o impulso preguiçoso como derivado da falta de vontade. Eu preciso ler este texto. Vontade? Você não tem idade e nem renda para viver ao sabor infantil da fruição. Fazer o que não quer é indicativo de liberdade para Kant. Esta leitura vai me beneficiar mais do que ficar vendo rede social no celular, assim, por puro egoísmo, intenso autocentramento e foco em mim apenas, farei esta leitura. Não porque sou ou bom ou virtuoso, todavia porque sou egoísta e penso no melhor para mim. É o egoísmo estratégico! A capacidade de separar que minha falta de vontade é uma máscara de um eu indolente. Quantas horas devo dormir por dia? Qual o momento de interromper uma tarefa e recuperar forças com um chá, um café ou uma soneca? A resposta sábia a estas questões deveria ser central na sua busca. O excesso e a falta nos rondam. Belfegor confunde as pessoas. O atleta experiente entende que ritmo é preferível a arrancadas súbitas. Constância é a chave de toda mudança.

Para finalizar, uma pista de exorcistas experientes. Belfegor é mais forte depois do almoço. Exorcize-o com café. Prepare-se. Tenha esperança no poder da sua luz para expulsar os demônios que, afinal, nascem sempre de você. Bom trabalho!

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