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ELEIÇÕES EM ALAGOAS

Alagoas: quando a política se transforma em caricatura de si mesma

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A política em Alagoas sempre ocupou um lugar singular no imaginário nacional – infelizmente, nem sempre pelos melhores motivos. Ao longo das décadas, o Estado tornou-se uma espécie de vitrine negativa, frequentemente associado a episódios que misturam poder, escândalos e práticas que afrontam os princípios mais elementares da vida pública. Não se trata de exagero retórico, mas de uma percepção construída a partir de fatos que ganharam manchetes, ocuparam capas de revistas e se converteram em símbolos de uma política que, em muitos momentos, parece caminhar na contramão do interesse coletivo.

Nesse cenário, acumulam-se histórias que transitam entre o absurdo e o lamentável: ambulâncias superfaturadas, recursos públicos desviados para sustentar privilégios pessoais, currais eleitorais alimentados por práticas arcaicas, emendas parlamentares desvirtuadas de sua finalidade original. Enquanto isso, a realidade cotidiana da população expõe um contraste cruel: faltam merenda nas escolas, medicamentos nas unidades de saúde e infraestrutura básica em inúmeras cidades. O esgoto a céu aberto, ainda presente em muitas localidades, é o retrato mais visível de um modelo de gestão que falha justamente onde deveria ser mais eficiente: na garantia da dignidade humana.

Alagoas figura, reiteradamente, entre os estados com indicadores sociais mais desafiadores do País. Esse dado, por si só, deveria provocar uma profunda reflexão sobre o papel da política local e suas prioridades. Afinal, o exercício do poder público deveria ser instrumento de transformação social, e não de perpetuação de desigualdades. No entanto, o que se observa, com frequência, é a repetição de práticas que priorizam interesses particulares em detrimento do bem comum, alimentando um ciclo perverso e difícil de romper.

À medida que os períodos eleitorais se aproximam, essa realidade ganha contornos ainda mais inquietantes. Em vez de um ambiente marcado pelo debate de ideias, propostas e projetos para o futuro, instala-se uma sensação de vazio político. A impressão é de escassez de candidaturas que representem, de fato, alternativas consistentes ao eleitor.

Nos bastidores, longe do escrutínio público, articulam-se alianças que frequentemente ignoram divergências históricas e até inimizades declaradas. O objetivo é claro: a preservação do poder.

Nesse jogo, adversários de ontem tornam-se aliados de ocasião. Reúnem-se discretamente, negociam, recalculam posições e, quando conveniente, abandonam discursos outrora inflamados. A lógica predominante deixa de ser a coerência e passa a ser a conveniência. Em muitos momentos, a política parece orientada menos por compromissos com a sociedade e mais por estratégias de sobrevivência.

Essa dinâmica não é nova. Ainda no final dos anos 1980, durante o período da Assembleia Constituinte, quando permaneci em Brasília estudando Ciências Políticas na Universidade de Brasília, já havia quem apontasse essa peculiaridade preocupante da política alagoana. Em conversas acadêmicas, vozes experientes observavam que o Estado se distinguia negativamente no cenário nacional. Décadas depois, a percepção não apenas persiste – em alguns aspectos, parece ter se agravado.

O problema, contudo, não pode ser reduzido a uma distorção regional isolada. Ele reflete fragilidades estruturais mais amplas, que envolvem cultura política, mecanismos de controle, participação cidadã e o próprio funcionamento das instituições democráticas. Alagoas, nesse sentido, funciona como um espelho ampliado dessas deformações, onde os excessos se tornam mais visíveis.

Diante desse quadro, a pergunta que se impõe é inevitável: até quando?

Até quando a política continuará sendo percebida como espaço de interesses restritos, distante das necessidades concretas da população?

Até quando alianças circunstanciais prevalecerão sobre projetos sérios de desenvolvimento?

A resposta passa, necessariamente, pela sociedade. Sem pressão por transparência, sem cobrança por resultados, sem participação ativa no processo político, o ciclo tende a se repetir indefinidamente.

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