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CONEXÕES E PREÇOS

O superprazer

Para minha mãe, as idas ao supermercado eram sinônimo de diversão

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Imagem ilustrativa da imagem O superprazer
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Ir ao supermercado... A frase pode gerar um horror intenso. Dirigir ou caminhar, estacionar, pegar carrinho, escolher coisas, parar em filas, repassar a lista e o orçamento, fila no caixa, carregar peso, voltar à casa, guardar... Um sofrimento físico, um convívio apertado com pessoas com variados graus de capacidade de dirigir em corredores, conversas fiadas: este é o pensamento comum, ou, ao menos, o meu.

Minha mãe adorava o ato de estar no super. Testava cada legume. Tinha técnicas e truques. Vagem: quebrava ao meio; se o rompimento fosse rápido e “crocante”, estava boa. Se percebesse o legume “borrachento”, descartava. Batatas, frutas, melancias: para cada espécie uma expertise única. Ovos? Que não a enganassem com uma caixa bonita! Ela abria e avaliava, um a um, inclusive se estavam grudados no fundo do recipiente.

Açougue? As carnes eram tratadas com furor de patologista cuidadoso. As datas de validade eram alvo de particular atenção. “Os leites da frente são os mais velhos, pegue do fundo”, ela instruía a quem a acompanhasse.

Ela conversava com conhecidas. Hoje usamos a palavra “network”. Ela o fazia há décadas. Trocavam informações como uma máfia zelosa. “O outro super está com oferta de refrigerante.” Lá se iam as senhoras defensoras da economia doméstica.

Voltando ao lar, surgiam novas e sedutoras informações sobre os produtos. Havia notícias da comunidade. Houve sociabilidade, prazer e a certeza do dever familiar cumprido.

Com o tempo, ela e minha tia Beatriz passaram a discutir encartes de ofertas no jornal Vale do Sinos (São Leopoldo-RS). Eram páginas sedutoras, com fotos coloridas e preços imperdíveis. De posse de um desses informativos, ela pediu ao meu irmão Renato que a acompanhasse a um supermercado bem distante da área de residência. O motivo? Havia uma promoção de leite de caixinha. Meu irmão a acompanhou. Entraram no estabelecimento em busca da pechincha. Identificaram a gôndola e, com sorriso no rosto, dona Jacyr pegou duas caixinhas. Renato inquietou-se: “Mãe, só duas?” Sim, ela só queria duas. Tinha medo de que estragasse.

Não mediu que a gasolina do carro tinha sido superior ao desconto do produto. A compra se tornou um caso familiar repetido muitas vezes. Difícil avaliar. Minha mãe tinha um superprazer no supermercado. Avaliar produtos era uma habilidade. Substituir algo por item mais em conta era outra capacidade desenvolvida. No universo dela, a conta deveria manter-se dentro do razoável, mesmo com curva inflacionária em ascensão.

Havia um item de choque entre a concepção dela e a nossa. Em razão de preços altos, surgia nos almoços de domingo um sorvete de nome desconhecido de todos, uma marca muito econômica que ela descobrira atrás dos potes de gelados premium. Ao experimentar a refrescante gordura hidrogenada com corantes acrílicos, percebíamos que ser barato era a única coisa boa daquele pote. Ela economizava e ainda combatia diabetes entre os karnais: ninguém tomava muito o produto doce.

Se as marcas nunca mereceram a monogamia dela, os atendentes eram identificados, conhecidos, nomeados e agraciados com mimos. Ela gostava de duas moças do caixa. Pedia sempre ao mesmo rapaz que ajudasse com as compras. Como minha mãe nunca foi arrogante em vida, tratava todos com equidade, mas tinha seus protegidos e amparados. Criava laços. Produzia lembranças de Natal. Aconselhava com cuidado. Perguntava da família. O super criava uma estufa de trocas e de conexões carinhosas.

É fácil ironizar o zelo e prazer da minha genitora com a ida ao supermercado. Havia entusiasmos e indignações cômicos. Mas o mais interessante era a entrega ao momento. Ela precisava fazer. Fazia bem. Estava envolvida naquele instante de corredores e preços. O corpo e a mente se integravam na meta de abastecer a casa numerosa e ávida. E eu? Vou rapidamente, com certa contrariedade, jogo as coisas no carrinho, trago no rosto a expressão de que eu não gostaria de estar ali e, após o tempo mínimo, saio com esgotamento.

Por que cachorros e crianças parecem felizes? Porque sempre estão naquele momento. Não planejam. Desconhecem longo prazo e ansiedade pelo futuro. Comem, dormem integralmente. Juntam o aqui e o agora.

Cachorros e crianças parecem felizes por isso. Minha mãe no supermercado era uma criança feliz. Amava a família e cuidava dela. Entregava-se com zelo a sua obrigação de comprar. Meu pai produzia o dinheiro e ela o administrava. Era um contrato que nunca necessitou de ajustes, adendos ou reformulações. Por 51 anos, foi eficaz.

Já órfão e me lembrando das cenas com distanciamento, percebo o amor que existia naquelas vagens apertadas uma a uma. Fui amado pelo zelo materno e ela foi feliz como gestora de um pequeno reino. Confesso que a julguei, por vezes, pelos debates acalorados de encartes promocionais. Ela viu nas ações uma vocação e um propósito.

Obrigado, minha mãe, pela esperança no nosso futuro, pelo cuidado dentro de um supermercado. Mas... o sorvete alternativo era ruim mesmo. O corante passa, o amor de mãe fica. Está faltando algo na sua casa? Na minha, hoje, falta mãe...

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