Disputa
Renan e Dra. Eudócia travam guerra de narrativas em torno do caso Master
Ofensiva nas redes e contra-ataque no Senado revelam ensaio de campanha entre grupo governista e JHC
O caso envolvendo o Banco Master deixou de ocupar um espaço secundário no debate político alagoano e passou a figurar como um dos principais focos de tensão da pré-campanha eleitoral de 2026. A troca de acusações entre o senador Renan Calheiros (MDB) e a senadora Dra. Eudócia (PSDB) evidencia não apenas uma disputa em torno da narrativa e das responsabilidades sobre o episódio, mas também uma movimentação estratégica para antecipar o confronto entre os dois grupos políticos que tendem a polarizar a sucessão estadual.
Nas últimas semanas, Renan Calheiros elevou o tom de suas manifestações públicas, especialmente nas redes sociais, ao tentar associar a gestão da Prefeitura de Maceió, durante o comando do então prefeito JHC (PSDB), a supostas irregularidades envolvendo recursos vinculados ao Banco Master.
Em uma sequência de vídeos, o senador questiona decisões administrativas, cobra explicações e levanta suspeitas sobre procedimentos adotados na aplicação de recursos, mirando diretamente o ex-prefeito, que desponta como possível adversário de seu grupo político.
Nessa sexta-feira, Renan afirmou que novas informações relacionadas às aplicações realizadas pela Prefeitura de Maceió no Banco Master deverão vir à tona nos próximos dias e podem provocar forte repercussão em Alagoas. Ele disse que está recebendo documentos de órgãos de controle e fiscalização e que os materiais estão sendo analisados.
“Estamos recebendo dos órgãos públicos, do Tribunal de Contas da União, todos os documentos. Nos próximos dias, nós vamos ter muitos fatos que vão chocar a opinião pública”, declarou.
REAÇÃO
Em pronunciamento no Senado nesta semana, Dra. Eudócia partiu para o contra-ataque, buscando deslocar o foco das críticas e atingir o próprio Renan Calheiros. A senadora resgatou episódios passados relacionados ao sistema financeiro, sugeriu vínculos entre o senador e personagens ligados ao banco e chegou a defender a criação de uma investigação parlamentar para apurar o caso em âmbito nacional.
Eudócia sugeriu que Renan seja investigado por já ter sido citado por um advogado, em 2007, como suposto beneficiário do sucesso estrondoso do BMG no ramo de consignados via INSS. E ainda aponta um suposto elo do ex-presidente do Senado com o ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro.
O embate, marcado por acusações duras de ambos os lados, evidencia uma disputa que já ultrapassa o campo institucional e se estabelece como uma guerra de narrativas. Mais do que discutir o mérito técnico das denúncias, os dois grupos tentam consolidar percepções no eleitorado: de um lado, a ideia de irregularidade e má gestão associada ao campo adversário; de outro, a tentativa de descredibilizar o acusador, vinculando-o a práticas semelhantes ou a interesses ocultos.
Para a cientista política Luciana Santana, o episódio é sintomático do que está por vir. Segundo ela, o uso de temas sensíveis e escândalos como instrumentos de ataque tende a se intensificar à medida que o calendário eleitoral avança. “O que estamos vendo agora é um ensaio do que será a campanha. O tema Banco Master e outros casos semelhantes devem ser explorados de ambos os lados como estratégia para fragilizar o adversário. Isso aponta para uma eleição extremamente intensa, com alto grau de confronto e mobilização”, avalia.
DESGASTE
A centralidade do tema também se explica pelo peso político dos atores envolvidos. Renan Calheiros é peça-chave na articulação do MDB em Alagoas e principal fiador da pré-candidatura do senador Renan Filho (MDB) ao governo. Já Dra. Eudócia integra o campo político aliado a JHC, que, após deixar a Prefeitura de Maceió, se posiciona como uma das principais alternativas ao grupo governista na disputa estadual.
“O tema Banco Master e alguns outros escândalos vão ser, sim, alguns dos temas que vão ser tratados na campanha. Fica muito claro que isso vai acontecer de forma mais ampla durante o período eleitoral. Não será uma eleição tranquila, algo que não vemos há muito tempo. Enfim, faz parte do contexto quando você tem grandes nomes se confrontando”, avalia Luciana Santana.
A estratégia de ambos os lados indica uma tentativa de nacionalizar o debate, ampliar o alcance das acusações e transformar o tema em um elemento de desgaste contínuo ao longo da pré-campanha.