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LÁGRIMAS DE ALEGRIA

As virgens da dona Odete

A fé move montanhas, porém o interesse de dona Odete era apenas manter unida e feliz sua família

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Era o último domingo de maio e dona Odete, como sempre, foi à Paróquia Nossa Senhora da Paz, no bairro do Boqueirão, em Curitiba. Tinha 64 anos e uma longa tradição religiosa. Era o dia solene de coroar Nossa Senhora. Com seu rosário e um pouco de dor nas pernas, dona Odete chegou cedo à igreja.

Ali, observando a imagem ainda sem a coroa, pensou em como tinha visto a mãe de Jesus desde a infância. Quando criança, misturava um pouco a imagem de Nazaré com sua casa. Ela, uma espécie de Menino Jesus. Sua mãe parecia, pela bondade e beleza, com a Mãe Admirável da ladainha. Seu pai, por coincidência, trabalhava com madeira, como São José. Filha única, sentia-se parte de uma sagrada e feliz família. A imagem da sala com Jesus, Maria e José, para ela, era um retrato melhorado da sua família.

Casada aos 18 anos, ficou grávida pouco depois. Viu Maria como companheira de gestação, dedicando-se à Virgem do Bom Parto. A Imagem de Nossa Senhora do Ó tinha uma barriga como a dela, repleta de esperanças e algumas ansiedades. Conseguiu um bom obstetra, mas levou seu rosário para a maca do hospital. Agarrada a ele, chorando e feliz, recebeu sobre o seio o primogênito.

As crianças cresciam e a cada gripe surgia, poderosa, Nossa Senhora da Boa Saúde. Para os casos gerais como viroses, nos quais nem ela e nem a medicina pareciam ter certeza, apela à Nossa Senhora das Graças, segurando a medalha milagrosa com a força das mãos de uma mãe apelando a outra. Eram cúmplices, comadres, íntimas, sofredoras pelos filhos.

Quando ela tinha 56 anos, seu marido faleceu. Chegara o momento de entender a Virgem das Dores. Trespassada no coração, chorou muito e se entregou ao consolo que até a mãe de Deus ficou viúva e, pior ainda, perdeu um filho sob tortura.

O luto atenuou-se com o tempo e uma neta surgiu na casa de dona Odete. Ela via agora os pais de Maria, Joaquim e Ana, padroeiros dos avós, como colegas de função. Quando a netinha vinha aprender coisas com ela, sentia-se a própria Santana instruindo a filha. Sua biografia parecia paralela à da Virgem. Um padre a advertira em confissão que isso poderia ser vaidade. Ela fez a penitência prescrita, mas pensou que os padres não engravidavam e jamais poderiam ter essa ligação com a Virgem Santa. “Há coisas que só mulheres entendem”, ela disse para si. “O padre Alberto sabe teologia, mas maternidade é algo diferente.” Admirava o saber do pároco, mas sabia que “a graça supõe a natureza”, frase que o religioso explicara a ela como sendo de Santo Tomás de Aquino.

Envelhecia feliz, um pouco acima do peso, com certa saúde e cercada de filhos e netos. Claro: não tinha a pureza dos pastores de Fátima. Jamais fora santa como Bernadete em Lurdes. Não tinha a fé nova e intensa de Juan Diego diante da Virgem de Guadalupe. Nunca pescara uma imagem santa no Rio Paraíba. Porém, considerava-se uma vidente atípica de Nossa Senhora. A Rainha do Céu aparecia a ela em sonhos, insinuava coisas boas em orações e protegia sua família de modo pessoal e único. O mesmo douto vigário falara um dia no tal “salto da fé” e citou alguém de nome impronunciável. Ela não entendeu a frase, mas jamais dera um salto. Sempre estivera ali, no colo da Virgem, acolhida, compreendida e feliz. Era uma alma sem saltos ou sobressaltos. Era Odete, nome de gente simples, mas que apareceu em novelas associado a pessoas maléficas.

Começou a cerimônia e Odete cantou e rezou com fervor especial. A coroa estava sendo conduzida por sua neta, que acabara de fazer a primeira comunhão. Que orgulho! Vestida de anjo, a pequena Míriam carregava a peça dourada com devoção. Sorriu ao passar pela avó que se emocionou em meio a um Salve-Rainha. “Maria, rainha dos anjos, dos profetas e patriarcas, seria coroada pela minha neta”, ela disse a si com intenso deleite. Nunca tinha se sentido tão feliz. Era a Rainha da Paz, nome da paróquia. Era a Rainha do Céu e hoje a realeza da menina de Nazaré que disse sim a Gabriel seria reconhecida pela coroa da pequena Míriam. Aliás, o nome tinha sido sugerido por ela à filha, pois era o nome de Maria também, outra revelação do culto vigário.

O órgão tocou uma Ave-Maria e a pequena neta subiu a escada e depositou a coroa com perfeição na cabeça da Mãe de Deus, imaculada em sua concepção e medianeira entre o céu e dona Odete

Naquele instante único, a boa senhora sentiu que toda sua vida tinha valido a pena. Seus infinitos rosários, suas novenas, a quantidade astronômica de “Lembrai-vos” que ela tinha rezado, com certeza, tinham sido a alavanca que trouxera paz e estabilidade a sua grei. A fé move montanhas, porém o interesse de dona Odete era apenas manter unida e feliz sua pequena comunidade familiar. Seu rosário pareceu uma paliçada de defesa contra o mal do mundo e ela o segurou ainda mais firme nas mãos. “Rainha da Esperança, rogai por nós, que recorremos a vós.”

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