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O amante da verdade

Mesmo quando sua vida corria perigo, Marc Bloch se manteve fiel às suas convicções

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Imagem ilustrativa da imagem O amante da verdade
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Luís XV ordenou a construção de uma igreja em Paris em honra de Santa Genoveva. Não chegou a ver o templo erguido. Quando a construção terminou, o momento já era da Revolução Francesa. O prédio acabou virando o Panteão de Paris, local de homenagem a pessoas notáveis na memória nacional. Ali repousam os louros a Voltaire, Victor Hugo, Diderot e Zola. A glória também abre espaço para mulheres estrangeiras, como Marie Curie. Sob a cúpula monumental, ainda podemos admirar um experimento do século 19, o pêndulo que Léon Foucault instalou para demonstrar o movimento da Terra. A querida leitora e o gentil leitor custarão a crer: no século 19 ainda havia pessoas que acreditavam que a Terra fosse plana e imóvel. Incrível, não é?

O governo francês, ao celebrar 80 anos da libertação de Estrasburgo do domínio nazista, anunciou que Marc Bloch (1886-1944) receberia um cenotáfio (túmulo sem o corpo) no Panteão. Quem era ele?

Marc Bloch escreveu obras como A Sociedade Feudal e Os Reis Taumaturgos. Ele é mais conhecido entre estudantes por um pequeno livro chamado Apologie pour l’histoire ou métier d’historien. A obra é uma avaliação do labor dos filhos de Clio, a musa da História. Na abertura, encontramos a pergunta provocativa de uma criança: “Papai, para que serve a história?”. As respostas de Marc Bloch à questão infantil são belas. A edição da Zahar (Apologia da História ou O Ofício do Historiador) apresenta textos do filho Étienne Bloch e do medievalista Jacques Le Goff.

Bloch também foi grande amigo de outro historiador: Lucien Febvre. Juntos, fundaram a Escola dos Annales (1929), que buscava revisar as ortodoxias positivista e marxista. Surgia a “história das mentalidades”. Evocando um provérbio árabe, Bloch afirmou que “os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”.

O historiador, por vezes, é “atropelado” pela História. Bloch, nascido em Lyon com raízes alsacianas e judaicas, cresceu em pleno “Affaire Dreyfus”, o escandaloso caso que envolvia espionagem e antissemitismo na França da Terceira República. Se você acha o Brasil de 2026 muito polarizado, imagine Paris na época: nenhum jantar terminava sem que os convidados se enfrentassem com argumentos e socos sobre a inocência ou culpa do capitão Dreyfus.

Jovem, Bloch entrou no exército francês na Grande Guerra e participou com honras de combates como a sangrenta Batalha do Marne. Com a paz de Versalhes, seguiu a carreira acadêmica na Universidade de Estrasburgo.

Eclodiu a Segunda Guerra. A França foi invadida. Bloch chamou o colapso francês (1940) de “estranha derrota”. O historiador aderiu à resistência e colocou a própria vida em duplo perigo: era “maquisard” (membro da resistência) e era judeu. Em março de 1944, a Gestapo o prendeu em Lyon, sua cidade natal. Foi barbaramente torturado, e recusou-se a entregar nomes. Como foi comum naqueles dias de violência e de covardia, a denúncia da sua localização veio de um francês. A guerra revela heróis e canalhas. O chefe da repressão era Klaus Barbie (o “carrasco de Lyon”), morto em uma prisão francesa em 1991.

Em 16 de junho de 1944, já iniciada a libertação da França, Bloch foi metralhado pelas costas. Sua esposa, Simonne Vidal, morreu pouco depois, vítima de um câncer de estômago. O casal deixou seis filhos. O livrinho citado do Ofício do Historiador foi publicado, postumamente, por Lucien Febvre.

Os descendentes do historiador concordaram com a decisão do governo Macron. Em carta, o bisneto Matis Bloch agradeceu a homenagem e pediu que as cinzas permanecessem no túmulo original da família no departamento de Creuse (Bourg d’Hem), no coração da França. Outra exigência: que ninguém da extrema direita francesa estivesse presente à cerimônia. A presença seria um ultraje à memória do historiador e da esposa.

Bloch renovou a área da Idade Média e da teoria da História. Tendo sido forjado no atrito com alemães, era capaz de dar aulas voluntárias de francês a alunos germânicos em Estrasburgo. Foi herói em época de medo; tornou-se original num momento em que o manual dominante de Langlois-Seignobos impunha a fidelidade à documentação como meta maior do bom historiador. Assassinado aos 57 anos, Bloch continua sendo uma referência como homem coerente

No prólogo do meu doutorado, homenageei Marc Bloch. A análise da crença no poder milagroso dos reis franceses (tocavam escrófulas - infecções linfáticas - e prometiam cura) foi fundamental para a maneira como penso a relação entre fé e História. Quando voltar a Paris, visitarei o cenotáfio no Quartier Latin. No antigo sepulcro em Bourg d’Hem, uma frase define o caráter do historiador: “Dilexit veritatem” (Amou a verdade).

Em dias de fake news, é bom lembrar que Bloch amou a verdade mesmo quando sua vida corria perigo. Ele a buscou e nela depositou esperança. O historiador continua sendo um exemplo de dignidade em meio a crises.

Agradecimentos: obrigado aos professores José Alves de Freitas Neto e Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, que leram este texto previamente.

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