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Quero ser lido!
Um bom texto deve ser encerrado no apogeu, nunca arrastar-se em declínio longo, para não cansar
Como prender a atenção com seu texto? Essa pergunta é feita por candidatos do Enem, jornalistas, literatos e até por quem deseja seguidores na internet. A resposta é complexa.
O primeiro passo é saber quem me lê. Estou escrevendo para um escritório de advogados ou para alunos do Ensino Médio? Isso vai direcionar o uso de palavras, o tamanho das frases e a presença ou não de gírias e até de palavrões.
O texto deve ter como princípio a autenticidade. Usar vocabulário sofisticado sem ser erudito aumenta a chance de deslizes. Ouvi uma pessoa famosa dizer a palavra “míster” de forma paroxítona, duas vezes, em um discurso recente. Ela deveria dizer “mister” (oxítona, sinônimo de necessário). Acredito que usava pouco o termo e terminou por resvalar na pronúncia. Outro exemplo: meus alunos de mestrado/doutorado adoravam colocar “destarte” e “outrossim”, vocábulos naturais em Alexandre Herculano, mas raros no século 21. O contrário também ocorre. O professor experiente quer parecer jovem e insere gírias “da hora”. Pode ser um toque isolado de graça, mas, em excesso, o efeito é negativo. Convide um conhecido a visitar sua casa com uma expressão paulistana (“cola na minha goma”) e verá o efeito estranho de falar de um lugar que não é o seu. Você já usou “farmei aura”? A expressão está em alta.
Outra meta desejável na comunicação é a objetividade. O ambiente jurídico ainda gosta de textos longos. Fora dele, siga a regra: menos é mais. Minha crônica tem cinco mil toques, incluindo espaços. Hoje, esse tamanho é possível em jornais dominicais, quando o leitor tem um pouco mais de tempo. Para um texto de Instagram, um parágrafo é bom; dois já é demais e três é “textão”.
Proust detalha cada pensamento em longas páginas. Balzac faz uso de descrições extraordinárias dos objetos sobre a mesa da sala. Clarice Lispector tem fluxos de consciência lapidados como diamantes. São todos gênios. Você e eu não somos tão dotados pelo universo. Melhor ser direto ao comunicar.
O texto que busca “engajamento” na internet deve ter uma boa imagem chamativa. É necessário um título sedutor e impactante. Por fim, formar um inimigo claro cria o ódio como gancho nessa escalada sedutora. Será desejável ou lícito?
Humor funciona quase sempre. É uma cola que faz a alma do leitor aderir. Para o grande público, é melhor evitar a ironia, como aconselhou Machado de Assis no conto A Teoria do Medalhão. Fugir da ofensa é estratégia prudente. Piadas de “tiozão” só funcionam em ambientes limitados, em todos os sentidos do termo.
Já que citei Machado, o recurso dialógico com o leitor pode funcionar. Eu gosto de “querida leitora e estimado leitor”. Um bom texto é uma conversa com alguém que percorre suas linhas. Falar diretamente com as pessoas funciona como aquela ligação telefônica em que um dos lados não responde há tempo e você indaga: “Ainda está aí?”.
A história tem um arco narrativo que chega a um ponto máximo e depois vai se encerrando. Um bom texto deve ser encerrado no apogeu, nunca arrastar-se em declínio longo. Ele deve ser interrompido em algum momento, de preferência antes de cansar. Vale o mesmo para uma aula ou um discurso: mate sua criação antes que as pessoas desejem fazê-lo. Como em uma visita agradável, deve ser genuína a pergunta do anfitrião: “Ah, mas já vão?”.
Cuidado com os desvios de rota, as explicações desnecessárias, a mudança de objeto. Histórias que não se encerram e dialogam com a seguinte podem funcionar no clássico As Mil e Uma Noites, no entanto, exigem enorme capacidade narrativa. Siga o fluxo do rio da escrita sem meandros. Os leitores deslizarão com mais facilidade em suas pirogas.
Citações? Boas, desde que mais originais e interessantes. Dizer “os fins justificam os meios” é problemático. Primeiro, é frase muito conhecida. Segundo, não é de Maquiavel. Terceiro, é quase senso comum e abrangente demais. Cuidado ao copiar máximas da internet: a atribuição é, frequentemente, duvidosa.
Ler muito ajuda a escrever melhor, desde que... você leia com consciência. Por exemplo: ao ler Flaubert, preste atenção em como ele introduz Charles Bovary e em como todo o livro desenvolverá aquela frase inicial sobre a mediocridade do médico. Em Camus, a notícia da morte da mãe, recebida com indiferença pelo órfão, constitui a chave da concepção da personagem central. Ao falar de felicidade e infelicidade familiar, Tolstói obriga os leitores de Anna Kariênina a parar já no primeiro parágrafo e pensar de qual estirpe seriam seus parentes. O verme a quem Machado dedica seu romance é uma revelação poderosa. Começos devem ser bem estudados.
Trago, agora, algo mais sofisticado. Os textos apresentam ritmos e esses derivam de alternâncias de orações subordinadas e coordenadas, curtas e mais longas, com polissílabos ou palavras monossilábicas. Como em um prato gastronômico sofisticado, observe-se a variedade de texturas, cores, paladares e intensidades gustativas. O texto deve ser esmerilhado, lapidado, polido e aperfeiçoado. Um recurso que uso muito: leia em voz alta para avaliar a sonoridade do que você escreveu. Cortar é tão importante quanto escrever.
Por fim, escrever é prática. Tende a melhorar com o tempo. É um exercício quase físico. Continue redigindo, leia com consciência, treine sempre! Entre o gênio de Clarice e o texto opaco e raso, existe um universo no qual nós nos debatemos e nadamos. Tenha esperança na leitura e na escrita. Talvez sejamos a última geração a cultivar isso.