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Você já foi aos pés?
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O pudor sobre o universo corporal é recente. Cresce na Idade Moderna e, no século 19, ganha estrutura com a ascensão das classes médias vitorianas. O mundo fescenino (relativo ao obsceno e ao escatológico) foi ficando de mau gosto - uma espécie de Lorde Voldemort, cujo nome não se pode pronunciar.
Vamos aos exemplos para marcar a virada histórica. As latrinas de Herculano e Pompeia, na Itália, mostram buracos públicos onde as pessoas se sentavam umas ao lado das outras. Os esgotos romanos, em alguns aspectos, eram mais eficientes do que os de muitas cidades modernas. No entanto, não previam resguardo íntimo para o ato de defecar. Avancemos. No luxuoso palácio de Versalhes, havia quase dois mil cômodos sem nenhum banheiro propriamente dito. Penicos e bacias circulavam pelos corredores internos. O rei se aliviava em público. A etiqueta cortesã não previa intimidade. Uma obra literária do Renascimento narra as aventuras de Gargântua e Pantagruel (Rabelais) e descreve como os gigantes testaram muitos limpadores de traseiros (como gansos). Outras épocas, outras sensibilidades.
O século 19 é a grande virada. Os banheiros se aperfeiçoam, a vergonha se instala e a intimidade vence. Dali por diante, multiplicar espaços privados para as necessidades fisiológicas passa a ser um ato de civilização e conforto. Surge um tipo exótico: a pessoa que só esvazia o intestino no conforto do próprio lar. Chegamos, por fim, ao zênite do processo: o casal com recursos passa a dispor de dois banheiros, pois nem a intimidade marital deve abarcar processos sanitários.
A língua acompanha a evolução da intimidade. As palavras cruas só podem ser enunciadas em lugares vulgares. Usamos eufemismos e metáforas. No mundo norte-americano, dizem “number two” ou “nature calls”. Na boa etiqueta, jamais se enuncia o objetivo final da visita ao banheiro. Diz-se apenas “vou ao toalete”; o próprio termo já é uma suavização. Antes? Palavras rurais mostram outro mundo: desde “casinha” até a sonora “cabunga”. No Algarve, em Portugal, encontrei um termo que eu desconhecia: “retrete”. Aliás, no mundo lusitano, prefere-se “casa de banho”, expressão civilizada e asséptica.
Os banheiros contemporâneos são abastecidos de sprays para apagar rastros do crime. Colocam-se difusores em ambientes sofisticados para que o cheiro agradável seja permanente. Chá branco é muito apreciado. Surgem “lavabos” com limpeza de UTI. Freiras de colégios da elite de outrora usavam o termo “lave-mains” para distanciar ainda mais a palavra do que ela de fato designa.
O cúmulo do pudor sanitário são os perfeitos banheiros japoneses: assentos aquecidos, aromas especiais, jatos de água e até seleção de sons para abafar explosões de metano do indivíduo entronizado. Se sanitários reservados e limpos são indicativos de civilização, o arquipélago do Sol Nascente representa o estado da arte dos banheiros.
O mundo já viveu uma guerra (do Pacífico) travada, entre outros motivos, pelo controle do salitre e dos excrementos de pássaros (guano), poderoso adubo. Esse conflito custou à Bolívia a saída para o mar.
Um camponês (como meu avô) via no esterco de vaca e nos dejetos de galinhas um objeto precioso que fazia as verduras crescerem. Na China tradicional, fezes humanas abasteceram a agricultura por séculos. A vida urbana nos afastou desse universo.
E qual o motivo do título desta crônica? Nós, gaúchos, usamos a expressão “ir aos pés” para indicar o momento derradeiro do peristaltismo intestinal. Não é apenas um termo popular ou indicativo de origem humilde: os médicos, durante a anamnese, perguntam se a distinta paciente “vai aos pés com regularidade”. A origem do termo regionalista é o “acocorar-se” para o ato e, assim, “ir aos pés”.
Hoje, toda esta crônica fescenina precisa conviver com o celular nos banheiros. O intestino grosso, aparentemente, precisa de conexão 5G. Muitas postagens são originadas “indo aos pés”. Talvez surja um termo médico novo: uma constipação intestinal pela falta de conexão ou até uma “hemorroida TikTok”. À revelia dos sábios médicos que pedem menos tempo no trono (evitando-se leituras e celulares), a nova intimidade envolve essa sobrecarga
Sob o olhar severo do Vesúvio, os antigos grafitavam os banheiros em Pompeia com ditos obscenos. Nas escolas, os alunos entregavam-se a frases vulgares e até desenhos pornográficos. Defecar parece ser um ato rebelde contra a ordem moral, e os sanitários sempre foram refúgio contra as regras formais. Hoje, postamos e vemos postagens no trono. Isso explica muito do que corre pela internet.
Tenho esperança sempre em um bom banheiro com assento TOTO japonês, com janelas para um jardim indevassável, paredes grossas e à prova de som, aroma delicado de chá branco, privacidade absoluta e uma tomada ao lado do vaso sanitário. Então, enfim, evacuaremos de forma poética e tranquila. Que sua semana transcorra sem obstruções, constrangimentos ou barreiras ao ato humano de ir aos pés.
PS: se puder, veja o filme Dias Perfeitos (Wim Wenders) sobre a existência feliz de um limpador de banheiros em Tóquio. Obra-prima!