loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 27/06/2026 | Ano | Nº 6254
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Jovens longe das urnas, o silêncio que ameaça a Democracia

A reação de uma geração desencantada com os políticos e os escândalos nos Poderes da República

Ouvir
Compartilhar

As pesquisas mais recentes apontam um fenômeno preocupante para o futuro da democracia brasileira: o maior índice de abstenção nas próximas eleições deverá ocorrer justamente entre os jovens, especialmente aqueles que terão o primeiro contato com as urnas. O dado, por si só, já seria alarmante. Mas torna-se ainda mais grave quando analisado em conjunto com outro sentimento que cresce silenciosamente entre as novas gerações: a descrença na política e nas instituições.

Durante décadas, a juventude foi protagonista dos grandes movimentos de transformação social. Das lutas pela redemocratização às mobilizações por direitos civis, educação e liberdade, os jovens sempre estiveram na linha de frente das mudanças. Hoje, entretanto, uma parcela significativa deles parece ter optado pelo caminho da indiferença. Não por comodismo, mas por desencanto.

Quando questionados sobre as razões desse afastamento, as respostas se repetem. Apontam o desgaste dos Poderes da República, os escândalos sucessivos de corrupção, a impunidade seletiva, a violência crescente e a incapacidade do Estado de oferecer soluções concretas para problemas que afetam diretamente suas vidas. Muitos não enxergam representatividade nos atuais líderes políticos. Outros afirmam não conseguir distinguir projetos de governo, partidos ou ideologias, convencidos de que a disputa pelo poder se transformou apenas em uma guerra de interesses.

A crise de credibilidade não se limita ao Executivo, ao Legislativo ou ao Judiciário. Ela alcança partidos políticos, sindicatos, movimentos organizados e até mesmo parte da imprensa. Para uma geração conectada em tempo integral, acostumada a acessar informações instantaneamente e a confrontar versões em poucos segundos, o discurso político tradicional parece cada vez mais distante da realidade.

Existe ainda um fator geracional importante. Os jovens de hoje cresceram em um ambiente marcado por crises econômicas recorrentes, polarização política extrema e promessas não cumpridas. Muitos passaram a acreditar que votar pouco altera suas perspectivas de emprego, renda, segurança ou qualidade de vida. A consequência é uma perigosa sensação de inutilidade do processo democrático.

Mas o abandono das urnas não representa uma punição aos políticos. Representa uma renúncia ao próprio poder de escolha. Quando os jovens deixam de participar, outros grupos decidem por eles. As políticas públicas continuam sendo formuladas, os impostos continuam sendo cobrados e os governantes continuam sendo eleitos. A diferença é que a voz da juventude desaparece do processo.

A história demonstra que os espaços vazios na política nunca permanecem vazios por muito tempo. Quando cidadãos conscientes se afastam, grupos organizados ocupam esse lugar. A ausência dos jovens nas eleições não enfraquece apenas sua capacidade de influenciar decisões; enfraquece a própria renovação democrática. Sem novas lideranças, novas ideias e novas demandas, a política tende a envelhecer, tornando-se cada vez mais distante da sociedade que deveria representar.

É preciso reconhecer que a responsabilidade por esse cenário não é apenas dos jovens. A classe política também tem sua parcela de culpa. Há muito tempo, os partidos deixaram de dialogar com a nova geração de forma efetiva. Falta linguagem, falta conexão e, sobretudo, faltam exemplos que inspirem confiança. Não se pode exigir entusiasmo cívico de uma juventude que observa diariamente denúncias de corrupção, disputas de poder e privilégios incompatíveis com a realidade da maioria da população.

O desafio, portanto, é reconstruir pontes. A democracia não pode sobreviver apenas com a participação dos mais velhos. Ela precisa incorporar o olhar crítico, a criatividade e a inconformidade características da juventude. Sem isso, corre o risco de se transformar em um sistema formalmente democrático, mas cada vez menos representativo.

O voto não resolve todos os problemas de uma sociedade. Nunca resolveu. Mas a ausência dele certamente não resolve nenhum. Se a juventude brasileira decidir permanecer longe das urnas, o país perderá muito mais do que eleitores. Perderá a energia transformadora de uma geração inteira. E uma democracia sem jovens não é apenas uma democracia envelhecida. É uma democracia que corre o risco de perder o futuro.

Diante desse cenário de afastamento da juventude da vida pública, não basta apenas lamentar os índices de abstenção ou apontar responsabilidades. É preciso agir. A democracia não se fortalece apenas nas eleições; ela se consolida todos os dias por meio da participação cidadã, da formação política e do compromisso coletivo com o bem comum.

Com esse propósito, o Instituto Cidadão, entidade da sociedade civil alagoana, percorrerá diversos municípios do interior do Estado com o "Programa de Formação de Jovens Líderes", uma iniciativa voltada para o resgate da autoestima, da consciência cidadã e do protagonismo juvenil. O objetivo não é formar candidatos, mas formar cidadãos. Jovens capazes de compreender o funcionamento das instituições, fiscalizar os atos do poder público, participar dos debates de interesse coletivo e exercer plenamente seus direitos e deveres.

Mais do que incentivar o voto, o programa busca despertar uma geração para a importância da participação permanente na vida da comunidade. Democracia não se resume ao ato de votar a cada dois anos. Democracia é acompanhar, cobrar, propor, fiscalizar e construir soluções.

Relacionadas