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Gente em linha reta
Por vezes, a beleza pode estar em dirigir com cuidado e entregar-se a curvas maravilhosas
Você já viu uma foto de uma via na Serra do Rio do Rastro (SC)? É uma cena linda: um diálogo sinuoso entre estrada e topografia. O caminho feito por humanos serpenteia entre morros e vales. Um dia, talvez, conhecerei aquela paisagem que descobri por imagens. Na natureza, a curva é linda. Na arquitetura, é Niemeyer. Na vida, a sinuosidade pode ser um problema.
A linha reta é o trajeto mais curto entre dois pontos. Há indivíduos que andam de forma direta. Exemplo: decidem fazer uma tarefa imediata (como avisar o porteiro sobre algo) e a realizam rapidamente.
Em outros momentos, a trajetória, mesmo reta, pode ser longa. Exemplo: eu gostaria de dar aulas em uma boa universidade pública. O caminho? Preciso de graduação, mestrado, doutorado, artigos, livros, domínio de línguas, negociações e um concurso. Se essa é minha meta, vou com resiliência ao encontro do que almejo. A reta pode ser prolongada, mas continua sendo reta.
Uma pessoa que anda em linha reta tem clareza mental e parte para a ação resoluta. Essas pessoas são raras. As curvas cerebrais influenciam muita gente.
Os inimigos do caminho mais curto são a procrastinação, a falta de foco, o vício de ser multitarefa, a ansiedade estéril e a incapacidade de hierarquizar ações e objetivos. O “ansioso” bufa, agita-se, assume feições de muita importância e de grandes preocupações e, ao final, nada ocorre. O tempo é argila a ser fracionada e moldada. O ser que não anda em linha reta culpa a matéria-prima à sua frente, jamais o oleiro.
Existe o falso “linha reta”: age imediatamente, sem estratégia, reativo, um tarefeiro sem planejamento. Surge o problema e a pessoa se atira à primeira ação possível. Geralmente, causa mais danos do que resolve. Enrolar e afobar-se são as duas variantes da ineficácia.
Pessoas em linha reta têm clareza da dimensão do problema e dos recursos de que dispõem para resolvê-lo. Conseguem refletir sobre a equação complexa: prioridade, tempo, recursos disponíveis e competências envolvidas. Sem avaliar minimamente isso, não se vence uma batalha, não se conclui um curso superior e não se troca uma lâmpada.
Existe o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, que exige avaliação por profissional competente e muitos cuidados. Há pessoas confusas que se autodiagnosticam como portadoras de TDAH. Para todos os humanos há medidas e tratamentos que podem diminuir o impacto de especificidades neurológicas. Somos diversos, há dificuldades maiores para alguns e todos podemos melhorar em algum grau.
A linha reta pode encurvar-se com o tempo. Minha mãe era brilhante na estratégia de organizar bagagens de quatro filhos pequenos, mais a mala dela e a do meu pai. Eram coisas para dois meses no litoral! Tudo o que usaríamos em janeiro e fevereiro devia caber em poucas valises. Ela conseguia. Como hoje administro apenas a minha mala e tenho dificuldades em calcular quantas cuecas e quanto remédio de uso contínuo levarei, admiro o senso prático dela naquela época.
Os anos passaram, a idade veio, o cérebro sofreu erosão. Já idosa, ela decidia fazer um bolo, começava... e então constatava que faltava fermento. Enviava a fiel funcionária ao mercado. Prosseguia a receita e, nova lacuna: “Estamos sem manteiga!”. De novo, um hiato para compras. Um almoço podia custar várias pausas. Nas viagens, itens essenciais da mala eram frequentemente esquecidos. Ela, que organizara tantas viagens com brilho estratégico na juventude, falhava consigo mesma na maturidade. Viajar com minha mãe sempre implicava conhecer farmácias em Paris, na Cidade do México ou em Veneza. Pior: eu tinha de me virar com termos novos.
Ela usava muito uma bolsa de água quente para suas dores abdominais e chegou a batizar o objeto: era o “Bernardo”. Na primeira noite no hotel francês, ela advertiu: “Estou sem o Bernardo, não posso dormir sem ele”. Lá fui eu atrás de uma bolsa de água quente em Paris. Estudei a língua, mas não sabia dizer “bolsa de água quente” em francês. Explicava à atendente da farmácia que minha mãe tinha cólicas e precisava de um instrumento revestido de borracha onde colocar água quente. A gentil moça dizia que eu necessitava de uma “bouillotte”. Minha mãe sorria com minha descoberta semântica e dizia ao telefone para minha irmã: “Graças a mim, o Leandro aprendeu uma palavra nova”. Sim, gente que acha que anda em linha reta deve aceitar a beleza das curvas alheias.
Andar em linha reta é sempre uma virtude? Parece claro se meu cargo é chefe do almoxarifado. Fica mais complexo em obras como A Montanha Mágica ou Em Busca do Tempo Perdido. Esses clássicos desapareceriam com a concisão narrativa. E se Ulisses tivesse saído de Troia e embarcado diretamente para Ítaca, chegando uma semana depois, sem ciclopes, sem Calipso ou Circe? Não existiria a Odisseia.
Voltamos à Serra do Rio do Rastro: por vezes, a beleza pode estar em dirigir com cuidado e entregar-se a curvas maravilhosas. Ulisses teria ficado dez anos naquela estrada catarinense. Penélope que se vire com sua mortalha! A virtude da esperança feminina é extraordinária e move o mundo.