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Madadayo!
Completo dez anos, as bodas de estanho ou zinco, nesta coluna, mantendo a esperança
No domingo, 24 de julho de 2016, os leitores do Estadão encontraram um autor novo no jornal. O título do texto era “Sobre a Vaidade” e meu nome e minha foto apareciam pela primeira vez. Eu tinha aceitado o convite de João Caminoto e fui apresentado ao simpático Ubiratan Brasil. Inicialmente, a proposta era que eu escrevesse apenas aos domingos. Mais tarde, aceitei estender a coluna também às quartas-feiras.
Naquele primeiro texto, narrei a reação de uma colega da Unicamp Ao saber que eu fora convidado pelo Estadão, ela me disse que jamais aceitaria o convite de um “jornal conservador”. Sorri e respondi que, quando ela fosse sondada para a função, poderia declinar. Até lá, deveria evitar trazer a público suas dores.
As crônicas continuaram e viraram livros. Em 2017, pela Editora Contexto, lancei Diálogo de Culturas, seleção de textos publicados. Em 2018, outro volume: O Mundo Como Eu Vejo, agrupando textos em subtítulos como “cotidiano de um mundo líquido” e “meu Brasil brasileiro”, etc. Um terceiro, O Coração das Coisas, seguia o mesmo rumo. Pela Editora Planeta, em plena pandemia, saiu A Coragem da Esperança, já consagrando o conceito com o qual passei a assinar as crônicas: esperança. Um quinto livro apresentou uma nova proposta: dirigir-me ao público jovem. O nome? Para Pensar e Escrever Melhor, organizado por Diogo Arrais.
Em dez anos, cinco livros surgiram do ato de escrever para o jornal. Outros veículos passaram a publicar meus textos em algum momento. Efeito? Um dia fui apresentado ao público como o “jornalista Leandro Karnal”.
Reaprendi a escrever. O texto acadêmico tem uma roupagem; o da grande imprensa, outra. Decidi não me concentrar apenas em “temas quentes”, que são o “filé” de toda imprensa. Caminoto disse uma vez que eu seria como “um oásis para leitores que, cansados de escândalos políticos, chegariam a algo que os fizesse pensar e não apenas lamentar o mundo”.
Iniciei a linha de textos ficcionais. O primeiro tratou do declínio de uma família: As Quatro Vítimas do Chá (12/1/2020). Minha posição política, de alguma forma, foi metaforizada na crônica Duas Livrarias e Uma Cidade (16/9/2020). O final machadiano foi a marca contida em delírios como Os Gomos do Desejo (25/11/2020). A crônica mais densa foi escrita no avião voltando do enterro da minha mãe: Réquiem (3/12/2017).
Quais são os temas das minhas “afinidades eletivas”? Principalmente, história, educação, leitura, religião, arte, hábitos sociais, a cultura do Brasil, viagens, relações a dois, amizade e memória. Como eu sei que os leitores gostaram? Tateio, apenas. Existe o setor de mensagens após cada texto. Eu o acesso para observar.
Há pessoas que me encontram e dizem que são leitores fiéis. Tenho haters dedicados que nunca deixam de ler a crônica que abominam. Não tenho a menor ideia do meu alcance. Faltam parâmetros. Escrever continua sendo um exercício solitário.
Esta é a crônica de número 891. Fico impressionado com o número. Completo dez anos, as famosas bodas de estanho ou zinco. Deveria parar?
Confesso que há momentos em que eu acho que já disse tudo o que desejava dizer e que é hora de abrir espaço para novos talentos. Tenho prazer em escrever, mas não queria que me dissessem que devo parar. Na Unicamp, um dia, fiz um pacto com alguns colegas. A fonte do acordo era um velho professor, fundador do departamento, que, aposentado, povoava os corredores com conselhos não solicitados. Observando o mestre experiente, combinamos revelar a qualquer um de nós no futuro: “Chega, já foi, vai para casa”. Decidimos virar a consciência zelosa um do outro em caso de apego excessivo ao hábito de zelador da função alheia.
Ressalto duas coisas muito boas! Nunca, em dez anos, recebi qualquer censura nestas páginas. Escrevi livremente, abertamente, sem que ninguém jamais dissesse algo como “preferiríamos…”. Outro dado interessante: sou lido por uma equipe extraordinária dentro do jornal que corrige meus erros. Destaco Francisco Marçal, João Sampaio, Regina Cavalcanti e Adriana Moreira. Muito obrigado ao jornal que me acolheu e a esta equipe paciente e cuidadosa.
Como disse, uso o conceito de esperança para fechar os textos. Acredito em gente escrevendo e lendo. Creio na imprensa livre e plural. Tenho um misto de otimismo que excede o do Cândido de Voltaire. Minha esperança nasceu na sala de aula. Foram 44 anos de magistério! Novas gerações têm direito de acreditar, mesmo que a melancolia domine minhas retinas cansadas, como diria Drummond.
Falta eleger o principal: a querida leitora e o estimado leitor. Sem vocês, nada disso existiria. Você que lê, que gosta ou não gosta, é a prova de que há vida no planeta das ideias. Talvez eu pare mais adiante, mas, citando o título do lindo filme de Kurosawa: Madadayo, ou seja, “ainda não”. Tenho esperança por mais algum tempo. Uma carreira deve ser assassinada, nunca morrer de velhice. Madadayo!