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Entre a máquina organizada e o projeto do eu sozinho

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O MDB de Alagoas marcou para o próximo dia 5 de agosto sua convenção, destinada a cumprir as formalidades previstas na legislação eleitoral e homologar candidaturas que, na prática, já são conhecidas da população. O encontro deverá confirmar o senador e ex-governador Renan Filho como candidato ao Governo de Alagoas e Renan Calheiros como candidato à reeleição para o Senado.

Não será exatamente uma convenção para produzir surpresas. Será uma grande festa política, com características também cartoriais, destinada a dar forma legal a um projeto eleitoral construído com antecedência, organização e uma ampla rede de alianças. O MDB chega à largada da campanha com estrutura partidária consolidada, forte presença municipal, candidatos definidos e um grupo governista que, até aqui, demonstra maior capacidade de articulação do que seus adversários.

O principal nome desse projeto é Renan Filho. Sua trajetória recente lhe garante visibilidade, experiência administrativa e um conjunto de realizações que será amplamente utilizado durante a campanha. Chega à disputa carregando o que os políticos costumam chamar de “carteira de serviços”: dois mandatos como governador, obras executadas, programas implantados, presença no interior e relações estabelecidas com prefeitos, vereadores e lideranças municipais.

Na disputa pelo Senado, o MDB apresentará Renan Calheiros, um dos políticos mais longevos e influentes da história recente de Alagoas. Com sucessivos mandatos, passagem pela Presidência do Senado e presença permanente nas grandes articulações nacionais, Renan conserva influência no Congresso e interlocução com o governo federal. Sua candidatura será sustentada por uma estrutura política construída durante décadas e presente em praticamente todas as regiões do estado. O grupo governista considera que essa capilaridade lhe oferece posição competitiva. Ainda assim, falar em vitória antecipada seria ignorar a força dos adversários e a própria natureza de uma eleição na qual estarão em disputa duas vagas para o Senado.

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Do outro lado estará uma oposição com nomes fortes, votos próprios e presença consolidada na política. Seu principal problema, neste momento, não parece ser a ausência de lideranças, mas a dificuldade de reuni-las.

O ex-prefeito de Maceió JHC aparece como o provável candidato ao governo. Sua principal credencial é a administração da capital, onde alcançou elevada visibilidade e construiu uma imagem, especialmente por meio das redes sociais.

Disputar o Governo de Alagoas, porém, é uma tarefa bastante diferente de administrar Maceió. A capital concentra grande parte do eleitorado, mas não decide sozinha a eleição. O interior possui lógica própria, relações políticas antigas e lideranças que mantêm contato direto com as comunidades.

JHC parece apostar que sua popularidade em Maceió poderá produzir uma onda estadual. É uma estratégia legítima, mas arriscada. A boa avaliação de um prefeito na capital não é automaticamente transferida para os municípios do Sertão, do Agreste, da Zona da Mata ou do Litoral Norte. No interior, a política continua sendo construída com presença, alianças, compromissos e relações acumuladas ao longo do tempo.

O eleitor do interior pode acompanhar vídeos, inaugurações e discursos pelas redes sociais, mas geralmente também observa a posição do prefeito, do vereador, da liderança comunitária e das famílias que tradicionalmente participam da vida política do município. Não basta chegar para uma festa, reunir uma multidão e produzir boas imagens. Multidão em evento político nem sempre significa voto.

Nas cidades pequenas, tocou uma corneta e um tambor, o povo aparece. Vai à praça, acompanha a caminhada, cumprimenta o candidato e participa da festa, independentemente do partido. Confundir recepção popular com compromisso eleitoral é um erro antigo, cometido por candidatos de todos os lados.

O desafio de JHC será demonstrar que possui mais do que popularidade. Há sinais públicos de desconforto entre os grupos ligados a JHC, Arthur Lira e outros pré-candidatos ao Senado. A ausência de JHC no lançamento da pré-candidatura de Arthur Lira alimentou dúvidas sobre a solidez da aliança. Posteriormente, notícias indicaram que Lira teria liberado suas bases para escolher livremente um candidato ao governo, diante das indefinições do grupo oposicionista.

Arthur Lira possui força política, bases municipais e uma estrutura construída durante sua passagem pela Presidência da Câmara dos Deputados. Alfredo Gaspar tem eleitorado próprio, forte discurso na área da segurança pública e capacidade de mobilização. Davi Davino também aparece entre os nomes que buscam espaço.

Acusações de traição, falta de compromisso, personalismo e soberba, ainda que muitas vezes circulem apenas nos bastidores, criam feridas difíceis de cicatrizar. E o tempo eleitoral não costuma esperar pela reconciliação dos desentendidos.

Existe ainda uma hipótese capaz de provocar uma verdadeira explosão dentro da oposição: a possibilidade de JHC abandonar a disputa pelo governo e concorrer ao Senado. Até agora, ele é apresentado como pré-candidato ao Executivo estadual, mas sua eventual mudança de rota alteraria completamente a composição das forças oposicionistas.

De um lado, existe um grupo que sabe quem serão seus candidatos, quais posições ocuparão e como pretende conduzir a campanha. Do outro, há lideranças eleitoralmente fortes, mas ainda divididas por ambições, desconfianças e disputas internas.

O MDB não é invencível, e a oposição não está condenada à derrota. Porém, uma eleição majoritária exige mais do que popularidade. Exige unidade, estratégia e capacidade de transformar forças individuais em um projeto coletivo. Porque, na política, ninguém vence sozinho.

E, quando vários líderes tentam ocupar o mesmo lugar, o adversário agradece.

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