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A política como emprego de família
Quando o mandato deixa de ser missão pública e se transforma em profissão hereditária
A legislação eleitoral brasileira deveria conter um dispositivo que estabelecesse, mais ou menos, o seguinte: todo pretendente a cargo eletivo deveria comprovar que exerceu alguma atividade profissional antes de ingressar na política. Poderia apresentar carteira de trabalho, contrato formal, registro profissional, atividade empresarial comprovada ou qualquer outro documento capaz de demonstrar que conheceu o mundo real do trabalho.
Seria uma forma de impedir que a política se transformasse no primeiro emprego e, em muitos casos, no único emprego de quem pretende governar a vida dos outros.
Caso semelhante exigência existisse, não sei quantos dos atuais detentores de mandato em Alagoas conseguiriam comprovar uma trajetória profissional verdadeiramente independente da atividade política.
Em nosso estado, os critérios para alcançar o poder continuam muito próximos daqueles estabelecidos pelas oligarquias ao longo dos séculos: dinheiro, sobrenome, influência familiar, poder de mando e controle das estruturas partidárias. Mudam-se os discursos, as siglas e as estratégias de propaganda, mas permanecem os mesmos grupos, os herdeiros e os apadrinhados.
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Somam-se a isso os efeitos persistentes da desigualdade racial, da baixa participação feminina na política, da exclusão econômica e de outras formas de discriminação que ainda limitam o acesso de parcelas da população aos espaços de poder.
Alagoas possui nove cadeiras na Câmara dos Deputados, e a atual bancada federal é formada exclusivamente por homens. No Senado, há apenas uma mulher representando o estado, a senadora Eudócia Caldas, que assumiu a vaga como suplente, e não por eleição direta para a titularidade do mandato. Na Assembleia Legislativa, dos 27 deputados estaduais, apenas quatro são mulheres.
Essa realidade demonstra como a representação política alagoana continua distante da diversidade da população que deveria representar. Mulheres, jovens, trabalhadores, moradores da periferia e outros segmentos sociais aparecem frequentemente nas campanhas eleitorais, mas raramente ocupam o centro das decisões.
A diversidade é celebrada nos discursos e esquecida na composição das chapas.
Outro aspecto chama atenção: ninguém, ou quase ninguém, parece sair pobre depois de exercer um mandato parlamentar. Deve existir algum misterioso mecanismo de “fabricação de riqueza” funcionando nos corredores das casas legislativas.
Quando a política se transforma em negócio de família, a democracia perde parte de sua essência.
Há pais que, ao celebrarem a maioridade dos filhos, parecem já entregar, junto com o presente de aniversário, uma ficha de filiação partidária. Pouco tempo depois, anunciam a candidatura do herdeiro como se estivessem transmitindo um patrimônio particular.
É um contraste duro para milhões de brasileiros que trabalham durante toda a vida e jamais encontram uma oportunidade real de participar das decisões públicas.
O pai prepara o filho. O tio protege o sobrinho. O marido abre caminho para a esposa. O mandato de um impulsiona a carreira política do outro. Quando uma candidatura fracassa, surge uma nomeação. Quando uma porta se fecha, outra é aberta pelo mesmo grupo.
Forma-se, assim, uma espécie de sistema previdenciário das oligarquias: ninguém da família fica sem cargo.
Depois, reclamam que nada muda. Não muda porque, muitas vezes, troca-se o candidato, mas permanece a família. Troca-se o nome, mas conserva-se o mesmo grupo político. Muda-se a fotografia do cartaz, mas mantém-se intacta a estrutura de poder.
A democracia dificilmente alcançará sua plenitude enquanto a política continuar funcionando, em muitos casos, como uma profissão hereditária.
E, no fim, é sempre o cidadão quem paga a conta.