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Política

Primeiro golpe militar do Pa�s

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Diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra, a Proclamação da República no Brasil não teve nenhuma participação da massa popular. Como disse o jurista, político, jornalista e republicano civil naquele final de século 19, Aristides Lobo, os brasileiros assistiram ?bestializados? à derrubada de dom Pedro II do trono brasileiro. Hoje, 15 de novembro de 2009, o episódio completa 120 anos e é considerado por alguns estudiosos ?o primeiro golpe militar da história brasileira?. O fato é que a ?coisa pública?, significado de ?res pública?, ou república em latim, só esteve na pauta para atender aos interesses pessoais dos latifundiários e para fortalecer o Exército de Marechal Deodoro da Fonseca. Cidadania que é bom, nada. Até hoje, século 21. Aqui não se quer desmerecer a data histórica, mas tentar entendê-la distante dos mitos. A pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, Isabel Lustosa, doutora em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, na revista História Viva deste mês, concluiu que a Proclamação da República no Brasil ?foi um movimento militar por excelência, sem participação popular? e afirma que, contrariando o senso comum, a abolição da escravatura, ocorrida um ano antes, em 1888, não teve peso determinante para a derrubada do império, no levante liderado pelo marechal nascido em Alagoas. ?De fato? ? escreve Isabel Lustosa na revista História Viva ?, ?entre todos os elementos que levaram ao desfecho de 15 de novembro de 1889, o mais importante foi a adesão do Exército à causa republicana?. Segundo a historiadora, os militares tinham acabado de voltar vitoriosos da Guerra do Paraguai, onde tiveram contato com as tropas militares da Argentina e do Uruguai, mais profissionais e valorizadas. ?Indispensáveis na guerra, eles não se adaptariam facilmente à realidade imperial dos tempos de paz ? notadamente os oficiais?. O Brasil da segunda metade do século 19 vivia a influência, inclusive na Escola Militar, do positivismo do francês Augusto Comte, movimento que propunha à existência humana valores completamente humanos, afastado radicalmente da teologia e da metafísica. Além disso, as permanentes fugas de escravos acenavam para a insustentável abolição da escravatura no Brasil, que ao lado de Cuba foram os últimos países da América Latina a negar o sistema. Os militares já andavam desgostosos com essa sucessão de fatos que estavam colocando o Brasil ?fora da ordem?. Lustosa conta que foram feridos os brios dos oficiais quando fazendeiros do café paulista apelaram ao governo que o Exército fosse usado para capturar os escravos fugitivos. Líder militar e respeitado em todo império, marechal Deodoro chegou a pedir à princesa Isabel que poupasse a tropa do vexame de exercer ?o papel de capitão do mato?. Cresceu a insatisfação dos oficiais perante o governo imperial com a chamada ?questão militar?. De acordo com a historiadora, sucessivos ?castigos? foram aplicados aos militares que ousavam usar a imprensa para criticar os políticos, na época todos indicados do imperador. Em 1887, os oficiais do Exército já se opunham, em nota, aos arbítrios da monarquia. E participavam de reuniões com intelectuais como Rui Barbosa, para debater os ideais republicanos. Também com a abolição, em 1888, os fazendeiros, que queriam indenizações pelos escravos perdidos, se voltaram contra o rei. Deodoro já vinha em atrito com ministros da Guerra. Estava perto da proclamação acontecer. ### Proclamação marcada por boato Curioso é que pelo menos dois boatos marcaram a Proclamação da República por marechal Deodoro da Fonseca, segundo publicou a historiadora Isabel Lustosa. Mandado para o Mato Grosso pelo então ministro da Guerra João Alfredo de Oliveira, com o pretexto de comandar tropas e fortalecer as fronteiras no Brasil, o alagoano que estava cada vez mais se misturando aos republicanos retornou ao Rio de Janeiro quando assumiu a pasta do visconde de Ouro Preto, Afonso Celso. Transferido para a corte do Rio Grande do Sul, o militar Mena Barreto teria reforçado o boato de que o ministério iria dissolver o Exército, para fortalecer a Marinha e a Guarda Nacional. Amigo do imperador e considerado fiel à Constituição de 1824, marechal Deodoro custou a acreditar. Era uma estratégia para aproximar mais republicanos e militares, que se reuniam secretamente no Rio de Janeiro com Campos Sales, Francisco Glicério, Quintino Bocaiuva, Serzedelo Correia, Aristides Lobo, Lopes Trovão, Sena Madureira, Mena Barreto e Benjamin Constant, conforme conta Lustosa, que transcreve em seu texto a declaração que o marechal teria dado, após ser convencido de que valeria arriscar a tomada do poder das mãos do imperador, mesmo temendo o fracasso, quando ainda ostentava a fama de ?herói? após a longa Guerra do Paraguai. FAÇAMOS A REPÚBLICA! ?(...) Se não há outro remédio e se ele mesmo [o imperador] assim o quer, que leve a breca à monarquia! Não há mais o que esperar dela... Façamos a República. Benjamin e eu cuidaremos da ação militar, o senhor Quintino e seus amigos organizem o resto...?, teria dito marechal Deodoro da Fonseca, que em seguida convocou seu conterrâneo, membro do governo monarca, Floriano Peixoto, para uma conversa, este que ainda teria tentado, em vão, convencer o amigo de negociar os interesses militares com o império. Ao contrário, foi Floriano quem saiu do encontro convencido. Segundo a pesquisadora, ele teria dito: ?Enfim, se a coisa é contra ?os casacas? lá em casa tenho ainda a minha espingarda velha...?. Aí surge o segundo boato. Este teria até antecipado a proclamação. A República brasileira teria nascido antes do tempo previsto. Tudo estava para acontecer no dia 20 de novembro. Mas, uma carta de Floriano Peixoto ao ministro da Justiça, Cândido de Oliveira, pedindo um favor para um sobrinho no dia 13 de novembro, conforme revela a estudiosa, deixou em alerta os subordinados do império. O ministro da Justiça quis saber do ministro da Guerra se Deodoro estava aprontando alguma coisa. A negativa não o convenceu e de repente, no dia 14, a fofoca: ?Decretaram a prisão do marechal?. A tropa do 19º Batalhão de Cavalaria pegou em armas para defender marechal Deodoro da Fonseca, que não só contava com o prestígio, mas também com unanimidade dentro da Força Armada. Os ministros informavam ao imperador do movimento suspeito via telegrama. O último dizia: ?Dois batalhões revoltados. Venha?. Era madrugada do dia 15 e enquanto isso, Benjamim Constant e Deodoro dormiam em suas casas. Foram acordados às pressas e seguiram para o quartel de São Cristóvão, para seguir com sua tropa para o Campo de Santana, onde estava o governo imperial. Sem sangue, nasceu assim o Brasil republicano. ### O Brasil é movido a golpes, diz filósofo Doutor em filosofia política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, Roberto Romano, professor de ética na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na última edição da revista História Viva, afirma com todas as letras: ?O nosso Estado é absolutista, movido a golpes políticos e militares, que nos afastam da ordem democrática?. Ele diz que o golpe inaugural foi político, de D. Pedro II, no dia 12 de novembro de 1823, quando ele fechou a Assembleia Constituinte ?e mostrou que os representantes do povo tinham importância quase nula?. Depois da República, o pesquisador cita ainda o golpe de Getúlio Vargas e o Estado Novo, em 1937. ?Grandes golpes tornaram possíveis os pequenos, mudanças imperceptíveis no direito dos indivíduos, grupos econômicos e sociais?. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda, no livro História Geral da Civilização Brasileira, fala que ?o império dos fazendeiros (...) só começa no Brasil com a queda do Império?, deixando a pista de que o Brasil pós república ? ?coisa pública? ? continuou servindo à elite. É que em meados do século 19, o Brasil passa por importantes transformações econômicas. O café se consolida na região de São Paulo como o principal produto de exportação, após a decadência do açúcar. A chegada dos imigrantes contribui com o aumento da mão-de-obra livre, fortalecendo a classe média e ameaçando mais a escravidão, combatida pelos ingleses, que perseguiam e dinamitavam os navios negreiros. Nesse cenário, os militares deram ?o golpe? e acabaram com o Brasil Império. Nas próximas páginas, a Gazeta traz a opinião de alagoanos, nas palavras do comandante do 59° Batalhão de Infantaria do Exército, tenente-coronel Cristiano Pinto Sampaio; do historiador Alberto Saldanha, e do governador Teotonio Vilela, além de um perfil de marechal Deodoro da Fonseca. ### ?Era o desejo da sociedade? ?A proclamação da República não se tratou de golpe militar?, quer logo deixar claro o comandante do 59º Batalhão de Infantaria Motorizado do Exército, com sede em Alagoas, tenente-coronel Cristiano Pinto Sampaio. ?O momento da proclamação se deve a fatos anteriores. O Brasil era o único País da América Latina que ainda vivia uma monarquia?. O comandante afirma que a participação do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai (1864 -1870) contribuiu para a atitude dos militares no retorno ao País. ?Os problemas começaram depois da guerra, onde os militares do Brasil tiveram contato com outros Exércitos [Argentina e Uruguai], que viviam realidades diferentes, estavam mais avançados?. Segundo o tenente-coronel, foi quando surgiu o movimento chamado de ?a questão militar?, um dos fatos que intensificaram a crise do regime imperial. A questão militar ficou caracterizada pelos sucessivos desentendimentos entre os oficiais e membros do governo, a partir de 1886, muitas vezes por meio de artigos publicados na imprensa carioca. E de acordo com o comandante Pinto Sampaio, ?a própria sociedade passou a se manifestar? em apoio aos oficiais e em prol da Proclamação República. ?Foi o caso de Ernesto Cunha, Simplício de Resende e Benjamin Constant?. O representante do Exército em Alagoas afirma que, por esboçar um desejo da sociedade, que ele concorda estar restrita à elite, a proclamação da República se deu de forma pacífica. ?Não foi um golpe militar. Era o desejo da sociedade. Por isso ela se deu de maneira pacífica, após algumas reuniões do Clube Militar?, explicou ele, ao fazer menção ao fato de o Império querer que os oficiais, vencedores da guerra, fossem servir aos latifundiários e perseguir escravos, tarefa delegada na época aos chamados ?capitães do mato?, funcionários públicos de última categoria, que gozavam de pouquíssimo prestígio social. O tenente-coronel ressalta ainda que os oficiais do Exército, como os republicanos, não aceitavam a escravidão; estavam insatisfeitos com a permanência dela. Este teria sido outro fator que encorajou os militares a tomarem a iniciativa e livrar o Brasil da monarquia. ?O Clube Militar tinha 116 associados. Benjamin Constant era o presidente. E o clube também tratava desta questão?. De acordo com o comandante, a proclamação da República, inclusive, já estava sendo pressentida pelo governo. ?O último baile do império [no dia 9 de novembro de 1889] foi programado pelo imperador. Ele já sabia da proclamação?, afirmou o comandante do 59° Batalhão de Infantaria Motorizado. ?No dia 11 de novembro, houve uma nova reunião, quando Rui Barbosa disse que a Proclamação da República tinha que acontecer?, conta o tenente-coronel, citando o jurista para deixar claro que a ideia da proclamação não era exclusiva do Exército, foi discutida com setores da sociedade brasileira. Ele faz questão de dizer que nem no ano de 1964 houve golpe militar. ?As pessoas chamam a revolução de 1964 de golpe militar, o que não é verdade. A história conta de outro jeito, chama de ditadura, mas de acordo com o Aurélio [Buarque, autor de dicionários], ditadura é o poder na mão de uma pessoa só, de um tirano. E isso não teve nada a ver com o regime militar?. O comandante afirma que não foi um militar que assumiu o poder, após a derrubada de João Goulart, mas o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, era civil. Ele passou apenas 13 dias como presidente. Em seguida, entregou o cargo ao general Castelo Branco. ?É difícil de provar que houve um golpe militar?, afirmou o comandante, ao dizer que em 1964 havia ameaça à ordem, com as ligas campesinas e o fortalecimento do comunismo. E como no período da Proclamação da República, o objetivo era proteger a pátria. ?Nós temos que conhecer a história, não houve guerra na transição do império para a República. Marechal Deodoro foi o primeiro presidente porque a sociedade viu nele a pessoa mais preparada, assim como Castelo Branco [em 64], que passou três anos no poder. Neste período ficou garantida a alternância no cargo?. ### Movimentos passaram longe das massas populares Doutor em História e professor da Universidade Federal de Alagoas, Alberto Saldanha diz que é preciso considerar a abolição da escravatura, em 1888, para entender o processo da Proclamação da República. ?Há um processo de desgaste do sistema escravista, também por pressão da Inglaterra, que desde 1850 quer acabar com o tráfico e ganhar consumidores para seus produtos?. Segundo ele, neste momento, chegam os militares, articulados com os republicanos, que querem uma sociedade com todos iguais perante a lei. ?Nesse contexto, os militares adquirem papel importante. Ao final do império, eles vão percebendo a necessidade de maior profissionalização, após contato com outros exércitos na guerra do Paraguai?. Saldanha diz que é após o embate que a cúpula militar passa a questionar o Império. ?O Império valorizava muito mais a Guarda Nacional, organizada por coronéis não militares, mas coronéis chefes políticos nas províncias?. A partir daí, de acordo com o historiador, os militares se envolvem cada vez mais com os ideais republicanos. ?Boa parte dos militares aceita a ideia da República na medida em que o império não dá pistas de atender aos anseios do Exército, que é a profissionalização?, conta ele, dizendo que paralelo a isso, na esfera dos civis, os republicanos fortalecem o movimento abolicionista. Mas Alberto Saldanha reconhece que esses movimentos passaram longe das massas populares. ?A grande massa que teria força para dar uma conotação popular à mudança de Império para República seria justamente os escravos, mas os escravos tinham uma enorme dificuldade para se fazer representar. Foi a tentativa dos quilombos. E claro que a resposta foi a violência?. O historiador conta que a resistência, ao longo das décadas, de alguma maneira anunciava que a escravidão um dia chegaria ao fim. E isso teria, mesmo indiretamente, colaborado com os ideais da Proclamação da República. ?Pela resistência, a massa mostra que a escravidão chegará ao fim. Mas politicamente quem é que vai levar adiante a ideia da liberdade, da democracia, da igualdade? São setores da própria elite: militares, intelectuais, jornalistas, profissionais liberais, que formavam a classe média no País?, diz, acrescentando que os imigrantes, trabalhadores assalariados vindos da Europa, ao se submeterem a condições semiescravas, também contribuem, resistindo e protestando. ?Mas quando eles começam a organizar um movimento operário anarquista nos centros urbanos, também são reprimidos violentamente?, afirma o professor, ao falar da participação dos cafeicultores de São Paulo no processo republicano. ?Existia um movimento de cafeicultores, que começou a falar no fim do Império antes de 1880, só que tratava de uma República com escravos?, afirma Alberto Saldanha, ao completar: ?Outro fato é que o Império mantinha forte tendência de enaltecer o açúcar no Nordeste, e os cafeicultores diziam que o Império não lhes dava a devida atenção. Então, começaram a questionar politicamente a monarquia?. O historiador diz que por isso, o Partido Republicano Paulista, formado pela elite, propõe o fim do Império, caso contrário, o desligamento de São Paulo do resto do País. ?Depois de Deodoro e Floriano, aquela famosa República do Café com Leite, depois de Prudente de Morais, Campos Sales, é a vitória desse pensamento elitizado. Em Alagoas, a maior expressão é Euclides Malta?, recorda, frisando que a elite queria a descentralização política e administrativa. ?Na verdade, a elite econômica é surpreendida pelo movimento militar. A Proclamação da República acaba sendo um movimento armado?, conta o historiador, ao apontar as falhas. ?Os militares são defensores da pátria, para eles não há ninguém mais patriota. Sua formação é o império da lei, da ordem e da disciplina. Então Deodoro e Floriano têm dificuldades, eles raciocinam do ponto de vista militar, só que a sociedade é muito mais complexa?. Por isso, não demora para a elite tomar o poder. ?Para que militares e republicanos tivessem condições de rivalizar com a elite, teriam que ter ido além da proclamação e criado um projeto de mobilização popular, iniciado a reforma agrária, começado um processo de escolarização. Mas os republicanos que pensavam desta forma ficaram isolados?, concluiu. ### AL comemora data histórica O governo de Alagoas desde a última sexta-feira, 13, comemora os 120 anos da Proclamação da República. O governador Teotonio Vilela (PSDB), em homenagem à data, transferiu seu gabinete por três dias para a cidade de Marechal Deodoro. Ao repórter Davi Soares, ele falou sobre a queda do Império e fez uma avaliação dos caminhos tomados pela República brasileira até hoje. ?O Brasil evoluiu muito. E hoje está entre as dez maiores potências do mundo?, ressaltou, ao reconhecer que o modelo de República hoje em vigor no País colabora para este desenvolvimento. ?É evidente que a República contribui para o desenvolvimento, no momento em que vivemos em uma democracia que se consolida a cada dia, onde a participação da sociedade tem uma inserção direta nos destinos do País?, afirmou Vilela, na última sexta-feira, ao instalar seu gabinete, no prédio histórico onde funciona a Prefeitura de Marechal Deodoro. ?E sem nenhuma dúvida?, continuou Teotonio Vilela, ?a República é o grande lastro, o grande esteio cívico que sustenta esse Brasil, País que desabrocha para o mundo como uma potência de grande futuro?, disse o governador, que em seus discursos faz questão de ressaltar que recuperou a economia alagoana e reestabeleceu a credibilidade do Estado perante às instituições financeiras do Brasil e do exterior. Vilela também deu a sua opinião sobre a participação decisiva dos militares na transição do Brasil Monarca para o Brasil República. Na avaliação dele, o que foi considerado por alguns historiadores o primeiro golpe militar, não desmerece o fato de o Brasil se ver livre do poder central exercido pelo imperador. ?A Proclamação da República foi feita como um golpe, porque essa foi a maneira mais lógica para que o Brasil se transformasse em uma República sem derramamento de sangue. E realmente não houve derramamento de sangue, ao contrário de outros países onde a transição para a República foi traumática e sangrenta?, disse o governador, que hoje segue com a agenda oficial, em comemoração à data histórica. Numa cerimônia na capital, o cantor Djavan, o músico Hermeto Pascoal, o cineasta Cacá Diegues ? filhos de Alagoas ? e o seu partidário mineiro Aécio Neves, são alguns convidados para receber a Medalha de Mérito da República Marechal Deodoro da Fonseca. O evento marca o encerramento das comemorações. ### Herói da Guerra do Paraguai | DAVI SOARES - Repórter ?Mensageiros de paz, paz queremos, / É de amor nossa força e poder / Mas da guerra nos transes supremos / Hei de ver-nos lutar e vencer!?. O trecho do Hino da Proclamação da República (letra de Medeiros e Albuquerque), traduz ambiente familiar patriótico em que nasceu e viveu o herói da Guerra do Paraguai e proclamador da República, Manoel Deodoro da Fonseca. Aos 12 anos de idade, o alagoano assistiu seu pai, Manoel Mendes da Fonseca, dar uma demonstração de amor ao seu torrão natal, ao ser preso por comandar uma insurreição contra a mudança da capital da cidade de Alagoas, hoje Marechal Deodoro, para Maceió. Mas aquela, seguramente, não foi a primeira demonstração de amor à pátria presenciada pelo jovem alagoano que seria o primeiro presidente da República do Brasil. Nascido em 5 de agosto de 1827, além de crescer em meio a armas, fardas e ao exemplo do pai, Deodoro teve sua mãe, Rosa Maria Paulina da Fonseca, como principal incentivadora para que não somente seguisse a carreira militar ? juntamente com seus sete irmãos ?, mas também lutasse na Guerra do Paraguai, que tirou a vida de três de seus irmãos. A rigorosa e patriótica descendente de índios, de escravos e de senhores de engenho teve apenas duas filhas, Amélia Rosa e Emília Rosa. Enebriada pelo espírito patriótico, e já viúva, a matriarca chegou a afirmar que preferia que seus filhos ficassem sepultados no Paraguai a vê-los inertes diante das ameaças à sua pátria. Ao ser provocada por críticas a essa determinação, Rosa da Fonseca teria respondido com a seguinte frase: ?Prefiro que fiquem todos sepultados no Paraguai, com uma morte gloriosa, do que serem enlameados por uma paz vergonhosa para a nossa pátria?. A frase registrada nos livros de História e lembrada pela guia turística Maria de Fátima Silva de Oliveira, que recebe os curiosos em conhecer a história do proclamador há 26 anos, na casa onde nasceu Deodoro, no número 92 da rua e da cidade batizadas com seu nome. Fátima afirma que somente o décimo filho do casal, Afonso Aurélio da Fonseca, nasceu no Rio de Janeiro, quando a família se mudou para a capital do Brasil, em 1842, com o objetivo de ver os oito filhos ascenderem na carreira militar. Missão a que Rosa da Fonseca se dedicou mais ainda, depois de ficar viúva pouco tempo após se fixar no Rio. Aos 16 anos, Deodoro ingressou na Artilharia da Escola Militar e teve seu batismo de fogo em Pernambuco, combatendo a revolta separatista e liberal denominada Revolução Praieira. Tornou-se major aos 30 anos de idade; três anos depois, casou-se no Rio de Janeiro com Mariana Cecília de Souza Meireles, sobrinha do marechal Floriano Peixoto. E depois de missões no Prata e de se tornar herói da Guerra do Paraguai, atingiu o generalato com 47 anos, tornando-se marechal dez anos depois, na mesma década em que proclamou a República. Para o pesquisador e autor do livro ABC das Alagoas, Francisco Reynaldo Amorim de Barros, a figura do marechal Deodoro, apesar de singular e absolutamente necessária naquele momento de nacionalidade, não se apresenta com altivez no imaginário popular. Mais discreto que seu sucessor, Floriano Peixoto, e sem os rompantes característicos do segundo presidente do Brasil que ficou conhecido como ?o Marechal de Ferro?, Deodoro tem como marcas de seus atos a segurança e a racionalidade. ?Encontrei em trabalhos que pesquisei que ?Deodoro era dotado de um gênio alegre, folgazão e expansivo. Às vezes era tomado de irritação, mas pouco depois, rapidamente, acalmava-se, tornando-se afável e lhano, compondo a fisionomia tão expressiva, quanto denunciadora de uma energia máscula e de uma vivacidade de águia?. Para alguns ?era um militar cioso de sua independência, orgulhoso da sua condição e da sua carreira, incapaz de ceder, vergar ou transigir?. Pelo menos ao final da vida, sua personalidade tinha uma grande dose de autoritarismo e de narcisismo?, disse Barros. ### Amargurado com a carreira militar Mesmo tendo uma educação cívica de berço e tendo demonstrado um patriotismo heróico durante quase meio século de carreira militar, marechal Deodoro da Fonseca passou os últimos dias de sua vida sacrificada pelas Forças Armadas sentindo uma verdadeira ojeriza a qualquer coisa que o fizesse lembrar de sua trajetória de dedicação às armas. Infeliz, depois de ser impedido de lançar ao mar todas as suas fardas e medalhas conquistadas no Exército, pela sua esposa, dona Mariana da Fonseca, Deodoro morreu menos de dois anos após a renúncia à presidência da República que pode ter evitado um bombardeio ao Rio de Janeiro. E não admitiu que ninguém o visitasse fardado, após renunciar. Com 65 anos, vítima de dispnéia ? falta de ar ? causada pelo enfisema pulmonar e criado a partir do vício de fumar e mascar tabaco, o proclamador da República faleceu ao meio dia e 20 minutos de 23 de agosto de 1892. E em atenção ao seu último desejo, foi sepultado em trajes civis, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. O biógrafo Raimundo Magalhães Júnior, em sua obra Deodoro: a espada contra o Império, conta detalhes do velório e sepultamento do herói alagoano: ?O morto foi colocado no esquife como desejara, despojado de todas as suas insígnias e tendo no peito apenas ? exceção única feita pela viúva ? a medalha da Confederação Abolicionista?. O motivo da repulsa pela farda, pode ter sido agravado pelo fato do herói da República ter passado os cerca de dois anos de seu mandato ? de 1889 a 1891 ? enfrentando turbulências políticas que resultaram na decisão de dissolver o Congresso, em novembro de 1891. Mas o historiador Francisco Reynaldo Amorim de Barros, lembra que o sentimento de injustiça e de ingratidão que teve com relação à sociedade e aos companheiros de farda também tem como causa o fato de, na votação do Congresso Constituinte, em 1891, que o reconduziria a um segundo mandato, ter obtido 24 votos a menos que seu vice-presidente, o marechal Floriano Peixoto, eleito em uma votação separada. ?Pelo menos ao final da vida, Deodoro não foi feliz. Além das questões da doença física que o atormentava muito antes da Proclamação da República, seus biógrafos afirmam que o enjoava ter sido militar, de haver sacrificado toda sua vida à carreira das armas para, ao fim de tudo, receber como prêmio a ingratidão e a indiferença. Considerou-se desprestigiado com a sublevação de seus antigos companheiros e optou pela renúncia ao cargo de presidente para evitar uma possível guerra civil. Como reza o ditado grego: ?Nunca diga que um homem foi feliz, se não souber como foi a sua morte??, disse Barros. Marechal Deodoro não teve filhos. Mas tinha carinho especial pelo seu sobrinho, Hermes da Fonseca, que foi o quarto presidente do Brasil, de 1910 a 1914, mais de duas décadas depois de ter participado juntamente com o tio do movimento que culminou na Proclamação da República. Quanto à sua vida amorosa, o pesquisador Reynaldo de Barros afirma que teve uma companheira que servia em todos os momentos. Mesmo assim, a desobedecia ?com toda a tranquilidade?. ?Doente, não atendia ao apelo dos médicos e da esposa para descansar, especialmente nos dias que antecederam a proclamação, quando recebia constantes visitas de seus colaboradores e amigos?, disse o autor de ABC das Alagoas. ESQUECIMENTO Lembrado em alguns monumentos construídos na capital alagoana e em sua terra natal, a falta de preservação e valorização da imagem e da memória de marechal Deodoro da Fonseca talvez tenha sido causada pelo fato de terem restado poucos familiares seus no Estado, após a mudança para o Rio de Janeiro, em 1842. O único membro da família que retornou a Alagoas, para ser governador do Estado foi seu irmão, Pedro Paulino da Fonseca, um mês depois da Proclamação da República. Da casa em que nasceu, de original só restou a fachada, porque a casa passou décadas fechada, sendo destruída pela vegetação e pela falta de zelo dos alagoanos. De acordo com as pesquisas de Reynaldo de Barros, até o ano de 2003, não havia em Alagoas um documento sequer que tivesse sido assinado pelo herói alagoano, enquanto presidente. ?Embora tenhamos o Memorial à República [construído em Jaraguá], e embora tenha se dado o seu nome à antiga capital de Alagoas, creio que marechal Deodoro poderia ser melhor lembrado e mais homenageado pelos alagoanos. A casa onde nasceu, por muito tempo ficou quase em ruínas. Hoje felizmente está recuperada, e é constantemente visitada por aqueles que vão àquela cidade. Porém, muito embora o louvável esforço, não tem uma só peça de mobiliário que tenha pertencido ao marechal. Em 2003, tive oportunidade de entregar, ao Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, cerca 60 documentos que a família de João Gomes Ribeiro me confiou. Entre eles, o original assinado por Deodoro, como chefe do governo provisório, nomeando a Gomes Ribeiro como presidente do Rio Grande do Norte?, disse Barros.

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