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Conselhos para GV

O que ele poderia ter feito para evitar a crise que o levou à morte?

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Imagem ilustrativa da imagem Conselhos para GV
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

A República brasileira viveu de crise em crise. Houve raros momentos em que um presidente civil, eleito pelo voto direto, transferiu o poder a outro presidente civil, igualmente conduzido ao cargo pela vontade soberana das urnas. As cenas de Juscelino Kubitschek cumprimentando Jânio Quadros em 1961 ou de Fernando Henrique Cardoso passando a faixa presidencial a Lula em 2003 são exceções, não a regra. Curiosamente, nunca matamos um chefe do Executivo no poder, ao contrário dos EUA, que mataram quatro presidentes em atentados (Lincoln, Garfield, McKinley e Kennedy).

Vou tratar do comum: o choque aberto no campo político. Em 1954, a crise do último governo Vargas desembocou nos acontecimentos de 24 de agosto e abriu uma ferida que pavimentaria o caminho para o golpe civil-militar de 1964. O suicídio de Vargas foi um gesto de desespero. Seria possível outra saída?

Ninguém duvida da experiência de Getúlio. No período republicano, foi o presidente que governou por mais tempo: 18 anos somando os dois períodos (1930-1945 e 1951-1954). Em toda a história brasileira, só perde para dom Pedro II. Astuto, hábil, classificado de maquiavélico, GV foi protagonista quase sempre. O que ele poderia ter feito para evitar a crise que o levou à morte?

Este é um exercício de história contrafactual. Serviria para outra época? Julgue você, minha querida leitora e meu caro leitor.

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“Caro Getúlio:

a) Sua guarda pessoal é excessiva e corrupta. Afaste Gregório Fortunato. Não permita que pessoas leais a você operem fora do enquadramento institucional. O atentado da Rua Tonelero, em 5 de agosto de 1954, foi o estopim porque partiu de dentro do próprio governo: morreu o major Rubens Vaz, da Aeronáutica, e Lacerda escapou com um tiro no pé. A Aeronáutica passou a investigar com fúria, e a fúria chegou rápido aos seus subordinados. Você nasceu no interior do Rio Grande do Sul e o trato pessoal com a segurança vinha da tradição de estancieiro. Conselho para todo homem importante: renove regularmente a segurança e impeça que alguém se torne o grande canal de acesso à presidência.

b) Aceite a licença temporária e passe o poder a Café Filho. As redes políticas do vice são frágeis. Afastado o presidente, a oposição vai começar a brigar por poder. Repita o gesto de 1945: retorne a São Borja. Fique em silêncio. Encarne a “esfinge” que o marcou durante o governo Dutra e permitiu sua volta.

c) Aposte no jogo longo da mobilização popular. Seu capital político com trabalhadores urbanos e setores nacionalistas ainda é enorme. Uma estratégia de apelo direto à sociedade, por meio de comícios, rádio e mobilização sindical, pode inverter o jogo, como aconteceria com o “legalismo” de 1961.

d) Antecipe e previna rupturas. Não as acumule. Foram muitas coisas em muito pouco tempo: o discurso nacionalista de 1º de maio de 1954 (aumento de 100% do salário mínimo, que saltou de 1.200 para 2.400 cruzeiros), a criação da Petrobras em outubro de 1953, o choque com capitais estrangeiros e a famosa frase sobre a remessa de lucros, “uma sangria desatada”. Tudo isso criou frentes simultâneas de oposição: UDN, militares antigetulistas, imprensa, setores empresariais, Departamento de Estado americano. Uma sequência de conflitos espaçados, em vez de todos eles ao mesmo tempo, poderia diluir a oposição. Como dizia Maquiavel, é melhor ferir o inimigo de uma vez só, mas favores devem ser distribuídos aos poucos. Você inverteu a ordem.

e) Trate a imprensa oposicionista como adversária política, não como inimiga a calar. A escalada com Carlos Lacerda foi fatal. O dono da Tribuna da Imprensa era impiedoso, chamava você de “cadáver insepulto” e pedia abertamente a sua deposição. Mas a tentativa de silenciá-lo pela violência, mesmo que você não a tenha ordenado diretamente, transformou o jornalista em mártir da democracia e deu à oposição a munição moral definitiva. Lembre-se: nada serve mais a um inimigo do que um tiro mal dado.

f) É verdade que sua carta-testamento fez a opinião pública reagir de forma poderosa, e seus inimigos enfrentaram a fúria popular. Sim, seu sacrifício o fez entrar na história. Contudo, morto e histórico, perdeu a chance de intervir de forma mais direta no seu legado. Houve depredações da embaixada americana e dos jornais oposicionistas no dia seguinte. A oposição se acovardou por meses. Mas você não estava lá para colher.

g) A carta-testamento (“saio da vida para entrar para a história”) inverteu a narrativa em questão de horas: multidões tomaram as ruas, o golpe em curso foi abortado, Café Filho governou enfraquecido e Juscelino venceu em 1955, herdando o capital simbólico do seu legado. Ainda assim, sua sobrevivência física valeria mais, no longo prazo, do que o gesto sacrificial. Atribui-se a Alberto Pasqualini, seu maior teórico no PTB, que o trabalhismo “precisava de um líder vivo, não de um santo morto”.

h) Você ficou maior do que o PTB e do que qualquer partido brasileiro. A partir do Estado Novo (1937-1945), já deveria ter iniciado a transição para outra liderança. O mais difícil no exercício do poder é saber que ele deve passar adiante no apogeu, e não no declínio. Você repetiu seu grande chefe original no Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros: lutou para permanecer e nunca pensou na sucessão. Esse apego é fatal para qualquer projeto político. Em poucos anos, Charles de Gaulle voltará ao poder na França e terá a sabedoria, depois, de simplesmente ir embora ao perder um plebiscito. Saber sair é a última virtude do estadista, talvez a maior.

No futuro, caro GV, seu legado continuará dialogando com as lideranças. Os militares subirão ao poder em 1964 e, para controlar os sindicatos, usarão a estrutura dependente do Executivo federal que você criou. A esquerda, tão crítica das ditaduras conservadoras, louvará você em nome da CLT e ignorará seu anticomunismo e seu autoritarismo. O alvo dela sempre será 1964 a 1985, e raramente 1937 a 1945. Perdoarão em você o cárcere de Graciliano Ramos ou a entrega de Olga Benário grávida aos nazistas em 1936, mas farão duríssimas críticas ao assassinato de Vladimir Herzog em 1975. Seus cadáveres serão mais leves do que os do AI-5. Suas estatais, como a Petrobras, serão alegremente mantidas nos governos militares e generosamente exploradas em todos os regimes, autoritários ou democráticos.

Lembre-se, caro GV: crises passam, e o Estado permanece no Brasil varonil com céu de anil. Ah, por fim: já que você nunca foi muito católico mesmo, vire evangélico. Isso lhe dará um futuro muito forte e cheio de esperança. Confie em mim. Brasília (você ainda não sabe o que é) bem vale uma missa, ou um culto. Encha-se de esperança.

PS: substitua o nome do seu filho de Lutero por Adonai Emanuel. Vai dar mais sorte.”

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