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Morrer aos 75
Entre a expectativa e a qualidade de vida, surge uma questão: o que fazer com a vida mais longa?
O artigo tem doze anos. Saiu na revista The Atlantic, em outubro de 2014: Why I Hope to Die at 75. O autor foi o doutor Ezekiel J. Emanuel: oncologista, bioeticista, vice-reitor de iniciativas globais da Universidade da Pensilvânia, e um dos arquitetos do Obamacare (Affordable Care Act). O peso dessas credenciais foi justamente o que tornou o ensaio tão polêmico. Já falei desse texto em crônica.
A ideia central: Emanuel argumenta que viver tempo demais também é uma perda, e não apenas morrer. Por volta dos 75 anos, as capacidades cognitivas e físicas entrariam em declínio tal que os anos restantes se tornariam um fardo, tanto para o próprio indivíduo quanto para quem o ama.
O argumento não é a favor da eutanásia nem do suicídio. Emanuel esclareceu que não pretende encerrar a vida aos 75, mas parar de fazer esforços para prolongá-la. As medidas que diz que recusará a partir daquele aniversário: rastreamento de câncer (por exemplo, colonoscopias ou exame de PSA); marca-passo, desfibrilador, troca de válvula cardíaca ou ponte de safena; tratamentos para câncer após essa idade; vacinas contra a gripe; antibióticos e, por fim, qualquer intervenção heroica. O médico anuncia que aceitaria apenas cuidados paliativos para alívio do sofrimento.
Quais são os argumentos para uma decisão tão polêmica? Para o autor, estamos vivendo bem mais em anos cronológicos, mas menos em qualidade e capacidade. Invoca também o declínio da criatividade e da produtividade. Com base em dados sobre a idade de pico da produção científica e artística, argumenta que a maior parte das contribuições significativas ocorre bem antes dos 75. Pior: a longevidade excessiva aumenta o peso sobre as famílias. Não quer ser lembrado como o avô que perdeu a memória e exigia muitos cuidados.
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Para o médico de duplo nome bíblico, ao chegar aos 75 anos, já terá amado, sido amado, visto os filhos crescerem, realizado projetos: uma vida completa, no sentido aristotélico de uma narrativa com arco concluído. Ele ataca o que chama de obsessão cultural americana em estender a vida a qualquer custo, relacionando essa atitude ao medo da morte descrito por Ernest Becker em The Denial of Death (1973).
O debate foi enorme. Recordo-me de réplicas e tréplicas. Eu, Leandro, devoto incondicional de vacinas, fiquei horrorizado. O título, segundo o autor explicou depois, foi escolha da revista para angariar mais leitores. O tema não seria propriamente morrer aos 75, mas recusar longevidade sem qualidade. Em entrevistas posteriores, notadamente cinco anos depois, à MIT Technology Review, manteve a posição, alegando que a maioria das pessoas, quando perguntada, prefere qualidade a quantidade de vida, mas age na prática de modo contraditório.
As críticas, se bem me lembro, apontaram várias fragilidades do raciocínio do oncologista. Primeiro, tratar 75 como fronteira arbitrária desrespeita a heterogeneidade do envelhecimento. Como Emanuel se envolveu no plano de saúde apresentado pelo presidente Obama, houve suspeitas de que os cuidados seriam racionados para idosos. Houve quem argumentasse que a sabedoria pode crescer com a idade e que a tese se aproxima perigosamente de uma ética utilitarista do “valor social” da vida. Cícero, em De Senectute (44 a.C.), já defendera o oposto, afirmando que a velhice é a fase da prudência e da contemplação, e que cabe ao espírito, e não ao corpo, definir o valor de uma vida. Norberto Bobbio, no De Senectute contemporâneo (1996), escrito aos 87 anos, retomou o tema e descreveu a velhice como tempo de memória ativa.
Eu sempre tenho muita esperança em relação a problemas que atingem países ricos. Por quê? Há mais pesquisa sobre HIV do que sobre malária, mais estudos sobre Alzheimer do que sobre febre do Nilo. Quando a doença atinge corpos endinheirados em Nova York ou Londres, a chance de cura cresce. Males endêmicos de áreas pobres demoram mais a encontrar vacina. A velhice, desafio mundial e particularmente forte em países desenvolvidos, foi alvo de saltos enormes. A expectativa de vida no Japão chega a 84 anos; no Brasil, segundo o IBGE (Tábua de Mortalidade 2024), está em 76,6 anos, ante 45,5 em 1940. Na minha idade (e aqui vai uma reflexão não científica), meu pai era muito mais velho do que eu sou hoje. A diferença: uso estatinas para controlar o colesterol há 15 anos, cuido mais da alimentação, faço atividade física e sou intensamente mais otimista do que meu amado pai foi. Isso me faz um idoso legalmente, no Brasil, mas ainda longe de cuidados geriátricos. Tenho direito jurídico, mas, biologicamente, não precisaria da fila preferencial. Ampliou-se o patamar de “maturidade com saúde”.
Emanuel tem razão em um ponto central: temos dificuldade em lidar com a finitude. Nossa legislação sobre filas preferenciais pressupõe outro momento na concepção da velhice. Provavelmente, a hoje chamada “prioridade da prioridade” (80 anos) seria o que, há meio século, era a visão dos 60 anos. Simone de Beauvoir, em A Velhice (1970), já advertia: “Quando compreendermos o que é a condição dos velhos, não nos contentaremos em reclamar uma política da velhice mais generosa, um aumento das pensões, habitações sãs, lazeres organizados. É todo o sistema que se acha em jogo”.
Recomendo a leitura do artigo. Tenho a experiência, na Academia Paulista de Letras, de conviver com grandes confrades e confreiras octogenários e nonagenários muito ativos. São pessoas com objetivos, afetos, produção e olhar vivo. Fico feliz de que, em 117 anos da casa, o limite de 75 do doutor Emanuel tenha sido rotineiramente ultrapassado. Para mim, hoje, juridicamente idoso, a questão dialoga com saúde, mas, acima de tudo, com a pergunta: o que fazer com a vida mais longa que estamos tendo? O tempo aumenta e, com ele, a esperança. Esperança em quê? Tempo para quê? Eis uma pergunta que cada um deveria responder com 18 ou 81 anos.