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O baile de máscaras

Entre o mitômano e o ‘sincericida’, existimos com relativo grau de felicidade

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Imagem ilustrativa da imagem O baile de máscaras
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

O carnaval europeu ocorre no inverno. Ao ver cenas da festa em Veneza, entendemos que lá a geografia faz com que as pessoas se cubram para brincar. Aqui, suando, ficamos quase sem roupa. Geografia ou cultura? Boa discussão.

As máscaras são de vários tipos. Carl Jung cunhou o conceito de persona (do latim, “máscara teatral”) justamente para descrever esse fenômeno. Ele escreveu que “a persona é aquilo que alguém não é, mas que ele mesmo e os outros pensam que é”: uma máscara necessária para a convivência social, mas perigosa quando a pessoa se identifica completamente com ela.

Oscar Wilde tem a famosa provocação, em O Crítico como Artista: “Dê a um homem uma máscara e ele lhe dirá a verdade”. A ideia é que a máscara, paradoxalmente, liberta e protege quem a usa, e permite uma sinceridade que o rosto exposto não ousaria.

Fernando Pessoa vive essa questão. Há um trecho do Livro do Desassossego (Bernardo Soares) que diz: “Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos”. E o próprio fenômeno dos heterônimos é uma encenação filosófica das máscaras do eu.

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Erving Goffman, sociólogo, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1959), desenvolve a tese de que toda interação social é uma espécie de teatro, em que cada um desempenha papéis conforme o palco, ideia próxima do “todo o mundo é um palco” de Shakespeare (Como Gostais).

Nietzsche, em Além do Bem e do Mal (aforismo 40), escreve: “Tudo o que é profundo ama a máscara”. Para ele, a máscara não é apenas dissimulação, mas também proteção do que há de mais íntimo e valioso em alguém.

Ninguém sobrevive no trabalho ou em família sem uma máscara. Em um casamento, cedo se aprende que tornear a verdade, amansar a opinião ou evitar uma crítica sincera pode trazer mais benefícios. Não se trata de cinismo, mas quem sobrevive à devastação cáustica da sinceridade? Entre o “mitômano”, que crê na própria inverdade e rompe com a ordem simbólica do real, e o “sincericida”, existimos com relativo grau de felicidade. Não é cinismo nem uso seletivo da verdade, mas a negociação que todo ser humano aprende para existir no mundo.

Eu diria, voltando aos pensadores citados, que as máscaras do baile da vida não são apenas para agradar aos que nos cercam, mas para que possamos estar bem com nós mesmos. Elas são para serem vistas e para que nós não vejamos algumas coisas. Como a Medusa, o real pode petrificar. Preciso vê-lo pelo escudo polido de Perseu. O que você diria a si e aos outros se pudesse ser absolutamente sincero? De novo o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa (Bernardo Soares): “O homem não deve poder ver o seu próprio rosto. (...) A Natureza deu-lhe o dom de o não poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos”.

A Bíblia reforça o custo da verdade. Jesus disse o que pensava e morreu crucificado. Ele era a verdade e foi torturado. Seu primo João Batista simplesmente disse algo real sobre Herodes e teve a cabeça decepada. Curiosamente, a pergunta “o que é a verdade?”, feita por Pilatos a Jesus, não foi respondida. Há uma expressão peculiar em João (3,21 e, igualmente, 1 João 1,6): “fazer a verdade” (em grego, poiein ten aletheian). A verdade bíblica não é só algo a ser pensado ou dito: é algo a ser vivido. Tiago 1,22 ecoa isso: “tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes”. A verdade deveria ser vivida biograficamente. A verdade é um comando divino, o falso testemunho é interditado pelo Decálogo, mas... pode custar sua cabeça.

Walter Salles dirigiu Diários de Motocicleta (2004), recriando um momento da vida de Che Guevara em viagem com seu amigo Alberto Granado pela América Latina, em 1952. Há um momento na obra em que um benfeitor de ambos, o médico peruano Hugo Pesce, dá o esboço de um livro recém-terminado para que os argentinos o analisem. Granado, diplomático, elogia. Che diz que o texto é muito ruim e cheio de clichês.

O amigo o questiona depois: por que não mentiu ao benfeitor? Claro, o episódio ajuda a criar a imagem hagiográfica de um Che amigo da verdade. O diálogo é forte: por que não mentir quando isso não prejudica ninguém? A resposta religiosa (ou marxista) seria... porque não é a verdade.

E você, querida leitora e estimado leitor, estaria no time Alberto Granado ou no time Che? Só para lembrar: Granado morreu com 88 anos, de causas naturais, em 2011; Che foi assassinado em 1967.

Afinal, qual é o valor absoluto ou relativo da verdade? Quais as máscaras necessárias? Como conciliar a obrigação de usar máscara que o mundo quase nos exige e o impulso de fazer um corte afiado com a lâmina epistemológica do que consideramos real?

Você terá um almoço em família hoje? Espero que consiga pensar em algo a tempo para as perguntas sinceras que rondam qualquer encontro fraterno em clima eleitoral. Com que rosto você irá hoje? Qual persona lhe permitiu sobreviver a estas semanas de agitação política? Ao cair da noite deste domingo, soarão os primeiros acordes de um inesquecível “bal masqué”. Escolha bem a roupa: a festa vai longe. Mantenha a esperança (e a sanidade). Brindemos sempre ao novo César: somos os gladiadores que ficarão na arena lidando com as feras do mundo real.

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