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A morte dos mortos
O Dia de Finados, que já foi teatro afetivo nacional, está virando peça com plateia rarefeita
Há uma cena que se repete menos a cada ano. A família reunida, a flor na mão, o caminho até o jazigo, o pano úmido passando na pedra fria, a oração breve, o silêncio constrangido entre os vivos. O Dia de Finados brasileiro, que já foi teatro afetivo nacional, está virando peça em cartaz em novembro com plateia rarefeita. A frase anual da minha avó em novembro já se perdeu no passado: “Precisamos limpar os túmulos da família”.
Sempre visitamos os mortos? Não. A visita ritualizada ao túmulo, tal como a conhecemos, é invenção relativamente recente no Ocidente. O Dia de Finados foi instituído no século 10 pelo abade Odilon, do mosteiro de Cluny, na França, que fixou em 2 de novembro, por volta de 998, uma data de oração pelas almas. A tradição associa a decisão ao pavor do fim do mundo no ano 1000, embora os medievalistas hoje discutam se esses “terrores” não seriam lenda posterior. Os cristãos dos primeiros séculos sepultavam nas catacumbas. Os medievais enterravam os nobres dentro das igrejas, sob as lajes por onde pisavam os vivos: fórmula perturbadora, em que se pisava no avô durante a missa. Só no século 19 o cemitério se afasta do templo e vira espaço público, laico, higienizado, organizado como cidade paralela. O processo de secularização da morte deslocou os enterramentos do interior das igrejas para cemitérios a céu aberto.
Anne Martin-Fugier (Os Ritos da Vida Privada Burguesa, in História da Vida Privada, vol. 4, Companhia das Letras) assinala o ano de 1850 para o começo da popularização da visita aos cemitérios. Segundo a autora, “em 1902, registram-se 350 mil visitas aos cemitérios de Paris no Dia de Finados, ou seja, mais de 10% da população”. O luto também era uma prática social. Por meses, a viúva guardava “luto fechado”, completamente de preto. O perfume era interditado nesse período. Depois, a liberdade ia crescendo, e a viúva podia usar joias de azeviche. O luto burguês estendia-se à casa (empregados também) e aos objetos: do papel de carta aos lenços com bordas negras. O código atinge mais aristocratas e burgueses, mas é visto como exemplo de uma vida superior na sociedade. A autora assinala que é como se “o século 19 temesse desritualizar-se, e assim se apegasse a um modelo ritual antigo, inspirado pelo rei” (p. 260).
Em outros países? Cada cultura inventou seu jeito. O México celebra o Día de los Muertos com altares coloridos, caveiras de açúcar e fotografias dos ausentes. A morte, ali, é convidada para a festa. No Japão, o Obon é época em que os ancestrais retornam e as famílias acendem lanternas para guiá-los de volta. Em Nova Orleans, o jazz acompanha o cortejo.
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Tudo isso está mudando, e rápido. O primeiro crematório brasileiro foi construído em São Paulo, em 1974. Segundo o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, entre 8% e 9% dos mortos no País são cremados hoje. Parece pouco. Não é: duplicou nas últimas duas décadas e segue crescendo. Quem é cremado não tem túmulo. Quem não tem túmulo não recebe visita em 2 de novembro. O próprio ritual perde endereço.
Há outra variável silenciosa: a religião. Segundo o IBGE, os “sem religião” saltaram de 0,2% em 1940 para 7,9% da população em 2010. O censo de 2022 registra 9,3% e a tendência de crescimento se mantém. Sem religião não significa sem luto, mas significa, quase sempre, sem ritual codificado. E o Dia de Finados é, dominantemente, uma prática católica no Brasil. Quando o catolicismo recua, o calendário recua com ele. Os evangélicos, que crescem em paralelo, tampouco adotam a prática: seus rituais mortuários caminham para a secularização, com velórios fora dos templos, maior aceitação da cremação e significativo desinteresse pelos cadáveres depois do sepultamento.
Há, talvez, um fator ainda mais profundo: a mudança da nossa relação com a finitude. Philippe Ariès, historiador francês, mostrou que o Ocidente passou da “morte domada” da Idade Média, aquela que se via chegar, em casa, com a família ao redor, para a “morte interdita” do século 20, escondida no hospital, higienizada, envergonhada. Agora estamos numa terceira fase: a morte é evitada até na memória. Não visitamos os túmulos porque não queremos lembrar que existirão, um dia, os nossos. Vivemos a “tanatofobia”, o horror à morte. O título desta crônica pode ter afastado muitos leitores e leitoras.
Vivi outra relação com os mortos. A visita ao cemitério era uma lição sobre o tempo. Um cemitério cheio traduz o que nenhuma palestra ensina: somos passageiros breves e frágeis. A suprema pobreza é dita como “não ter onde cair morto”. Talvez hoje ela seja não ter quem se lembre da nossa existência. Indigência de memória!
Talvez o problema não seja o fim do ritual, e sim o fim do silêncio que o ritual impunha. Sem cemitério, sem visita, sem vela acesa, resta-nos o scroll infinito. E a morte, coitada, continua trabalhando, indiferente ao nosso desinteresse. Ela sempre teve paciência: é seu único defeito. Que os vivos descansem em paz hoje; os mortos já não precisam desse voto. Os sinos dobram por nós, como lembra Hemingway ao tomar emprestada a ideia de John Donne, outro finado famoso. Tenho esperança na vida.