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O choro psicanalítico
Quando a inquietude de uma criança inquieta escancara uma dor muito generalizada
Ganho a vida voando. De cidade em cidade, percorro as rotas com enorme frequência. Acumulo milhas suficientes para visitar Caronte, a maior lua de Plutão. Escrevo, como faço agora, sentado na poltrona de um avião.
Em um dos intermináveis voos, uma criança começa a chorar. Acho natural diante das variações de pressão. A mãe, cuidadosa, levanta-se e caminha com ela ao colo tentando acalmá-la. O filho (talvez dois anos) insiste em um prolongado e agudo lamento. Quanto mais se agita, mais a mulher o embala. Alguns se incomodam. Eu observo.
Parte da ideia de paraíso é o colo materno. Estar aconchegado pela mãe seria, por excelência, o que Romain Rolland chamou de “sentimento oceânico”, conceito discutido por Freud. Nada pode me atingir enquanto minha mãe me abraçar. Porém, há um dado a mais. A criança esperneia e até atinge o corpo da mãe na sua inquietação. Comporta-se reagindo a um incômodo que, por não ter como compreender, traduz em movimentos bruscos. Por mais agitado que seja o comportamento da criança, a mãe o acolhe, afetiva, imune aos espasmos do infante. Ao choro responde com frases doces. A agitação encontra eco afável. Em resumo, uma mulher carinhosa e focada na tarefa de transmitir doçura ao rebento incomodado.
Essa cena talvez revele um desejo ainda mais forte do que apenas um abraço de mãe. Eu quero alguém me amando mesmo quando eu estiver detestável. Eu quero amor sem precisar agradar. Quero receber beijos carinhosos e retribuir com caretas. Anseio por amor que não dependa de uma gramática de retribuição. Eu serei exatamente o que sou, de forma egoísta, e você se dedicará ainda mais. Ah, delícia das delícias...
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Talvez seja isso que incomoda alguns adultos. Dizem que a criança precisa ser educada e calada. O pequeno ser precisa aprender, como nós, pessoas do mundo das causas e das consequências diretas.
Sim, a civilização, a ordem e a boa educação devem prevalecer. Não se pode ter o direito de fazer birra e continuar sendo amado. Isso “estraga” as pessoas. Elas devem ser moldadas, caladas, punidas. Ninguém pode viver como um rei absoluto. Sabemos disso. Somos adultos responsáveis inclinados a pagar um pedágio para cada ato. Porém, adoraríamos essa gratuidade amorosa total. Ninguém tolera o “mimo” alheio porque quase todos nós desejamos ser mimados. Aquela criança inquieta escancara uma dor muito generalizada. Somos todos carentes de um afeto assim: que não precise de limites. Seria psicanalítico demais supor que nos incomoda não o choro de um ser de dois anos, mas o fato de que eu não posso chorar sem ser maltratado ou classificado como chato, histérico, dramático? Eu preciso ser calmo, tranquilo, racional, resiliente. Meu emprego, meu respeito entre amigos, minha conduta em público e até meu “réu primário” dependem desse custoso controle e de uma repressão contínua.
Eu li Freud. Sem repressão não existe civilização. A vida pública e decente tem um custo interno. Todos desenvolvemos técnicas de ator para existir em sociedade. Ninguém pode dizer tudo o que pensa e permanecer impune. A verdade é algo a ser lapidado e preparado. Somos algo como “curtumes emocionais”, amaciando o couro ao custo de produtos nem sempre aromáticos. Polidez, bons modos, contenção: valores que embasam a carreira e o sucesso na família.
O avião em que voo a uma linda capital do Nordeste atrasou duas horas para sair. O aeroporto de Guarulhos, Terminal 2, parecia uma praça de guerra. O ônibus nos conduziu a uma aeronave estacionada muito distante. O sol batia, e subimos pela escada a passos de escargot. As tomadas estão sem energia. O voo é longo. Os celulares já estão perto do fim. A comida? Bem... Não teremos o risco de engordar. Há muita turbulência no céu do meu país. Eu não posso chorar. Falta-me o “ninho” materno. Sigo roendo o salgadinho, resignado, com tranquilidade bovina. O filho, livre, chora, e é beijado. Seria inveja? Ele pode e eu não. Ele tem mãe e eu não. Ele recebe atenção e retribui com coices. Do meu lugar contemplo, entendo, talvez me ressinta.
Minhas dores e carências devem ser sufocadas. Sou adulto. Tenho boletos. Para piorar, sou figura pública e não devo me agitar ou chorar.
Cena final: a mãe avança com o ser inquieto e vem a mim. Pede, com infinita candura, que eu troque de lugar com ela. A janela pode acalmar a criança (ou relaxar a mãe?). Não tenho apego ao assento. Nunca tive. Saio. A criança vai encontrando a serenidade. Ali, perto de mim, ela adormece depois de muito tempo. A mãe a segura ainda mais firmemente e olha as nuvens. Eu me observo. Se eu chorasse, a jovem mãe me beijaria? Nunca saberei. O avião pousa no aeroporto dos Guararapes. A mulher se ergue com o ser no colo e vai para a saída. O infante dorme sem saber que viraria uma crônica. Freud dá uma baforada no charuto. Pego minha mochila. Fico sem esperança. Nunca mais terei colo nesta vida. Sou órfão. Restam-me os boletos. Faz frio fora do útero. Aterrissamos no solo duro. Fim.