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Política

A trajet�ria de um contador de hist�ria

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É um privilégio que poucos ? no mundo ? têm de, numa roda de conversa, poder fazer um relato como o seguinte: Quando jovem dirigente comunista, o jornalista Sebastião Nery participou do Encontro Internacional dos Estudantes, que no ano de 1957 foi realizado na Polônia. Na falta de um lugar com capacidade para abrigar as reuniões, foi designado para compor a comissão que negociou com a direção do Instituto Católico da Cracóvia para que cedesse suas instalações. O padre que respondia pela direção concordou e, solícito, entregou as chaves ao grupo, direto para as mãos de Nery. No dia seguinte, na abertura dos trabalhos, se destacou a atitude do então presidente da poderosa União da Juventude Comunista, com sede em Moscou (então União Soviética), que patrocinava o evento e cujo núcleo de Belo Horizonte era dirigido pelo jornalista. O russo procurou demonstrar gratidão, ?puxando pelo braço? o padre, para que compusesse a mesa, pedido que ele rejeitou. E seguiu-se o encontro. ### Sessenta anos em seiscentas páginas de um livro Nery costuma dizer que, com o livro, pôs ?sessenta anos em seiscentas páginas?, porque inclui as reminiscências da infância, mas, na verdade, o relato compreende um período de exato meio século, entre 1944, quando deixou a família em Jaguaquara, e foi para o seminário, em Amargosa, até 1994, quando retornou de Paris, onde era adido cultural da Embaixada brasileira, e ?cidade onde mais sonhei, mais aprendi, mais cresci, mais vivi, mais me comovi, mais amei, onde mais fui amado?. Ele conta que a ideia de escrever algo em que ?espremesse? sua vida em algumas páginas, reunindo não os relatos de personagens do mundo político que o notabilizaram, mas, sua própria experiência de vida e de jornalista, já lhe estava na cabeça havia uns dez anos. ### O momento certo para partir em busca de sonhos O momento em que Sebastião Nery identifica como sendo aquele em que começou a entender os ?desígnios? da nuvem foi quando terminou a 4ª série. E manifestou o interesse de sair de Jaguaquara (BA). Mas, por uma dessas ironias que sempre dão um bom enredo, um bom romance, no caminho, como uma ferramenta que o ajudou a dar sentido àquela aspiração de ?subir na nuvem?, apareceu um livro. ?Foi nesse momento que eu fui corrompido ? no sentido elevado da palavra. E nesse sentido, tenho certeza de que todas as crianças precisam ser, a um momento da vida, corrompidas, precisam ser apresentadas a situações como esta?, relembra. ### CENAS DA VIDA REAL Sebastião Nery diz que este é seu primeiro livro em que o foco da narrativa é ele mesmo, ao contrário dos demais, em que abordava episódios políticos, o resultado da cobertura de governos, experiências, como os meses em que passou na Sibéria. Mesmo assim, não há como fugir da proximidade que seu protagonista sempre teve com os fatos que marcaram a história do país. Daí a referência a isso no subtítulo de A Nuvem ? o que Ficou do que Passou ? 50 anos de História do Brasil. Em entrevista a Gazeta ele falou sobre: Sua maneira de divulgar os livros ?Eu digo sempre que meus livros não vendem; eu é que vendo meus livros. Nenhum até vendeu menos de duas a três edições. Do primeiro ao décimo sexto. Livro é que nem banana na feira. Se você não ficar ?olha a banana! Olha a banana!?, o sujeito não vende nada. Ou então, como boi no pasto: o sujeito tem que estar olhando, tem que estar cuidando?. Sobre a relação ? nem sempre amistosa ? com as editoras ?Os editores estão lá só recebendo o dinheiro e não sabem o esforço que você faz [para divulgar]. E depois ainda acham ruim quando você reclama que o livro não está na livraria, que acabou?. Sobre mercado ?O Folclore Político eu vendi em livraria e em banca de jornal. Existe uma grande diferença entre o livro de livraria e o livro que vai para a banca de jornal. Nesse formato aqui [da A nuvem...] não vai para banca, mas, o Folclore...? eu fiz em formato para ir para banca de jornal?. Sobre memória ?Eu leio todos os dias desde os oito anos. Eu tenho memória privilegiada, até hoje, mas tenho memória de ler. Posso passar na rua, ver você não reconhecer, mas, se eu leio um livro, eu me lembro do fato, se está naquela página do lado de cá ou do lado de lá?. Sobre os episódios da coluna nos jornais ?Eu consulto minhas anotações, que são muitas, na hora de escrever, senão eu arriscava demais. Você não pode arriscar. O leitor está ali. E é por isso que, às vezes, eu corrijo os outros?. ///

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