Rural
Mercado do boi vive momento de alta
Enquanto na Expoagro do ano passado a arroba do boi estava cotada, em média, a R$ 160, hoje ela é comercializada a R$ 250. Estimativa de criadores alagoanos é que a arroba possa alcançar - em breve - a casa dos R$ 270; aumento do dólar e do consumo na China foram os principais motivos deste aquecimento histórico
Apesar do cenário negativo causado pela pandemia da covid-19, o agronegócio, que se manteve atuante durante todo este período, colhe saldos positivos. Neste panorama, a pecuária ganhou um papel de destaque com preços considerados históricos principalmente no segmento de corte.
Segundo o presidente da Comissão da Pecuária de Corte da Federação de Agricultura e Pecuária de Alagoas (Faeal), Antônio Brandão, o aumento do preço do dólar e o desabastecimento de carne suína na China, decorrente do surto de peste suína africana, foram os principais motivos que levaram ao aquecimento da demanda no mercado bovino no Brasil.
De acordo com Brandão, na Expoagro do ano passado, por exemplo, a arroba do boi estava cotada, em média, a R$ 160. Hoje, ela chega a ser comercializada a R$ 250. Já a expectativas dos criadores alagoanos é que a arroba possa alcançar - em breve - a casa dos R$ 270 no Estado.
“Houve um desequilíbrio grande a nível mundial no fornecimento de carne já que a China, tendo sido dizimado 30% do rebanho chinês. Isso gerou um desequilíbrio tanto na produção, quanto no consumo. Para cobrir a lacuna existente, o país asiático teve que consumir outro tipo de carne, aumento à demanda pela bovina”, afirmou.
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Segundo Brandão, a China detém metade do rebanho de suínos do mundo. “Eles são os maiores produtores e consumidores desse tipo de carne. Em termos mundiais, a perda de 30% do plantel deles, representou uma média de 15% do plantel mundial. Uma redução nesta escala, sobrou principalmente para a carne de bovinos. Antes, a China não figurava como compradora de carne bovina do Brasil e, atualmente, é a maior compradora do nosso país”, afirmou.
Para o presidente da Comissão da Pecuária de Corte, o aumento do dólar levou ao barateamento da carne brasileira para o mercado internacional, além de torná-la mais competitiva. “Estamos, de certa forma, invadindo o mercado chinês. A gente vende para mais de 200 países no mundo e a China só tem condições de comprar de dois mercados. Ou ela adquire o produto junto aos Estados Unidos ou com o Brasil. Ou seja, na verdade, a China está dependendo da produção brasileira para alimentar a população”, destacou.
Diante de todo este cenário, Antônio Brandão afirmou ainda que os insumos para a pecuária também foram influenciados pelo aumento do dólar. “Se o criador for comprar milho, por exemplo, ele está 45% mais caro em comparação há alguns meses passados. Com o preço do boi, subiu também a soja, adubo, além dos elementos que fazem a ração balanceada. Os minerais são todos importados. Contudo, não podemos reclamar já que a arroba tem hoje recordes históricos que também se refletem no suíno e no preço do leite. Esses acontecimentos mundiais, aqueceram internamente o nosso mercado. O Governo Federal injetou recursos junto à população para salvar a economia do colapso e isso gerou o aumento do consumo. Estes recursos movimentam a economia e provocando uma demanda em alimentos e outros setores”, declarou.
Reflexos
Para Brandão, ninguém passará pela pandemia se sofrer algum tipo de problema. “Temos, por um período, o governo salvando a parte do consumo, mas ele também tem o compromisso fiscal. Não vai conseguir permanecer assim por muito tempo. Há um receio que, sem esse recurso emergencial, poderá haver uma acomodação do consumo. Ninguém sabe qual será a reação no comércio de bovinos e de outros animais para o ano de 2021. Mas, até janeiro do ano que vem, estamos com um panorama muito bom. Especificamente, no mercado de bovinos, não tem como aparecer boi de uma hora para outra para derrubar o preço da arroba. É preciso tempo para produzir. Estamos com um mercado enxuto com escassez de animais e com os frigoríficos tendo dificuldades de fazer escalas de abate. É algo que acontece em todo o Brasil”, reforçou.
De acordo com ele, a partir de agora, com os ajustes da arroba e dos insumos já caracterizados, o setor da pecuária deve ficar atento ao preço do dólar. “Se o dólar voltar a cair, teremos uma acomodação com queda de alguns preços. Se ocorrer o contrário, não haverá motivo para que, no futuro próximo, ocorra queda no preço do boi e de qualquer outra proteína animal no Brasil”, afirmou.
Expectativa
Para o presidente da Associação dos Criadores de Alagoas (ACA), Domício Silva, a pandemia acabou gerando um fortalecimento da pecuária. “O distanciamento e a reclusão levou o criador a repensar o negócio. Temos que aproveitar esse momento bom que o segmento está passando para analisar os números e diretrizes dos trabalhos realizados para que possamos crescer a cada ano”, frisou ele, destacando o esforço e a competência do criador alagoano.
Neste panorama, segundo o criador Aloísio Barros Correia, a pandemia mostrou para o Brasil e para o mundo a importância do agronegócio. “A nossa responsabilidade é muito grande. Tivemos que mudar hábitos e costumes. Os criadores passaram, praticamente, a morar nas fazendas e isso resultou em um incremento na produtividade”, afirmou.
Para o pecuarista, houve uma valorização do mercado do boi no país. “O Brasil passou uma fase de preços achatados. Muitos deixaram de investir, enquanto outros abandonaram a atividade. Agora, com essas exportações, principalmente para o mercado asiático e alguns países da África, houve uma demanda muito grande. Com isso, ascendeu agora a luz do criador. Afinal, é uma atividade que demanda trabalho. Hoje, o Brasil tem uma carência muito grande de reprodutores, principalmente o norte do país”, destacou.
O pecuarista lembrou ainda que Alagoas ainda é um mercado importador. “Nossa produção não atende ainda a nossa demanda e talvez possamos chegar o preço da arroba nas próximas semanas a R$ 270. Somos importadores de carne e de animais vivos. Esse preço em alta em todo o país, principalmente na região norte, tem dado essa sustentação para nós”, finalizou.