Transformação
Ferramenta tecnológica ‘Sisteminha’ amplia produção e renda de famílias rurais
Água enriquecida com nutrientes é usada para fertirrigação, após passar por processo de recirculação em tanques de piscicultura


No Agreste alagoano, na zona rural do município de Igaci — mais precisamente no distrito Pé de Serra — uma tecnologia desenvolvida pela Embrapa e aplicada pelo Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC) promete transformar a realidade de produtores locais. O projeto contempla 20 famílias de Igaci e de outros sete municípios do Estado.
Batizada de “Sisteminha”, a tecnologia consiste na criação de tilápias em tanques com 4,40 metros de diâmetro e 90 cm de profundidade, com capacidade para 14 mil litros de água. Nesse sistema, restos de ração, dejetos, escamas de peixes e até folhas que caem no tanque são decompostos por bactérias, enriquecendo a água com nitrogênio. Essa água é, então, utilizada na irrigação das lavouras, impulsionando a produtividade. A estrutura é construída coletivamente, em regime de mutirão, pelas famílias atendidas.
“O tanque é o coração do “Sisteminha”. Ele promove a reutilização da água em um modelo integrado de produção de alimentos. O peixe é o principal produto, mas a água resultante, rica em nutrientes, é usada na fertirrigação, o que pode triplicar a absorção de nutrientes pelas plantas”, explica Márcio Fabrício, técnico da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf).
O ciclo de criação é rápido: após 30 dias, faz-se a primeira despesca com até 100 peixes. Sessenta dias depois, retira-se o restante, com exemplares de até 500 gramas, somando mais de 45 kg por ciclo. “Parte dos peixes é consumida pela família, e o excedente pode ser comercializado. Em seguida, novos alevinos são inseridos na mesma água, já rica em nutrientes, iniciando um novo ciclo de 90 dias”, detalha Márcio.
Segundo ele, o tanque pode ser construído em até oito dias com placas pré-moldadas — tecnologia amplamente utilizada em cisternas pela agricultura familiar. Com capacidade para até 250 alevinos, o modelo garante proteína e água fertirrigada o ano inteiro.
O sistema conta ainda com um decantador, que separa os resíduos sólidos, e um biofiltro, onde bactérias transformam a amônia da água em nitrito e, depois, em nitrato — substâncias prontamente absorvidas pelas plantas.
A partir da implantação do tanque, cada família define o uso da água na produção agrícola. “As plantações são feitas de forma escalonada. Por exemplo, planta-se milho semanalmente, de 30 a 50 pés, de modo que, ao final de dez semanas, o agricultor estará colhendo e plantando ao mesmo tempo. O mesmo se aplica ao feijão e à macaxeira”, explica Márcio.
O excedente vira renda. “Um pé de macaxeira irrigado com água do “Sisteminha” pode render de 8 a 9 kg. Em três dias, já se pode colher outro. A batata-doce também apresenta boa produtividade. Com tudo crescendo simultaneamente, parte da produção pode ser vendida, fortalecendo a economia local”, afirma.
Para Alexandre Lima, técnico agrícola do MTC, o projeto tem um papel estratégico na permanência das famílias no campo. “O ‘Sisteminha’ gera alimentos saudáveis, renda e soberania alimentar. É fruto de uma parceria entre o Ministério da Pesca, a Univasf e o MTC. O agricultor sabe exatamente quanto investe em ração e o retorno que terá em proteína e renda”.
“Estou muito animado com esse projeto. A gente fez capacitações e aprendeu cada etapa. Agora teremos a oportunidade de produzir mais e melhorar nossa renda”, comemora o agricultor Miguel Macedo, um dos beneficiários do projeto.

