Mercado
CBIO pode garantir renda extra para fornecedores de cana
Em Alagoas, o pagamento dos Créditos de Descarbonização (CBIOs) do programa RenovaBio, após a obrigatoriedade estabelecida em lei, foi efetuado pela Usina Coruripe.


O pagamento dos Créditos de Descarbonização (CBIOs), previstos na Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), começa a se consolidar como um novo mercado para os produtores de cana-de-açúcar em Alagoas e pode beneficiar até cinco mil fornecedores no Estado.
Antes mesmo da obrigatoriedade legal, os repasses vinham sendo realizados apenas pela Cooperativa Pindorama, certificada no RenovaBio em 2020, e pela Usina Coruripe, habilitada em 2021. Em 2025, a Coruripe efetuou o primeiro pagamento aos fornecedores referente ao ano-base 2024, já sob a vigência da nova legislação.
De acordo com o gerente da Associação dos Produtores do Vale do Coruripe (Asprovac), Alnat Casado, cerca de 200 produtores foram beneficiados nesse primeiro repasse. Cada fornecedor recebeu, em média, R$ 0,78 por tonelada de cana entregue à usina. O valor ainda é considerado inicial, mas marca a transformação de uma reivindicação histórica do setor em receita efetiva para o produtor.
“A partir de agora, todas as usinas são obrigadas a fazer o repasse ao fornecedor de cana em função da nova lei. Vamos orientar o produtor a acompanhar esses pagamentos. No caso da Usina Coruripe, o repasse foi relativo a 2024, e os produtores também terão direito aos créditos referentes a 2025”, explicou.
A Usina Coruripe informou que, desde a habilitação no RenovaBio, reparte os valores dos CBIOs com os produtores de cana, sendo uma das pioneiras no Estado. Os valores variam de acordo com características da produção e o período de colheita. Em dezembro de 2026, a companhia prevê a distribuição dos créditos referentes ao ano de 2025.
O presidente da Usina Coruripe, Mario Lorencatto, destacou que a iniciativa fortalece a cadeia produtiva aliada à agenda ambiental. “O RenovaBio é um avanço do setor de bioenergia e um tema prioritário para a companhia, pois representa um benefício para a sociedade e para o meio ambiente”, afirmou.
O CBIO é um título negociável que representa uma tonelada de CO₂ que deixou de ser emitida na atmosfera com o uso de biocombustíveis, como o etanol, em substituição aos combustíveis fósseis. Os créditos são adquiridos por distribuidoras para cumprimento de metas ambientais, criando uma nova fonte de renda para o setor sucroenergético.
A obrigatoriedade do repasse foi estabelecida pela Lei nº 15.982, sancionada no fim de dezembro de 2024, encerrando um período de insegurança jurídica em que o pagamento dependia de decisões internas das usinas ou acordos pontuais.
Os créditos seguem o ano civil, de janeiro a dezembro, e não o calendário da safra, que em Alagoas ocorre, em geral, entre setembro e março. Por isso, o pagamento anunciado refere-se exclusivamente ao exercício de 2024.
FAEAL
O presidente do Sistema Faeal/Senar, Álvaro Almeida, ressaltou a importância da atuação conjunta entre sindicatos, associações e usinas. “Parabenizamos o segmento que demonstra responsabilidade e firmeza nas conquistas obtidas junto ao setor industrial. Esperamos que outras empresas sigam o exemplo da Coruripe. Como Faeal, estimulamos a representatividade sindical na defesa dos interesses da agropecuária alagoana”, afirmou.
PIONEIRISMO
“Este será o quinto ano que a Cooperativa Pindorama faz a distribuição de CBIOs. Há anos em que os valores são mais elevados e outros em que são menores. Hoje, o preço do CBIO está em torno de R$ 30, bem abaixo dos valores superiores a R$ 150 registrados em anos anteriores. Isso é mercado”, explicou o presidente da cooperativa, Klécio Santos.
A Pindorama foi a primeira empresa de Alagoas a aderir ao RenovaBio, em novembro de 2020. Desde então, já gerou cerca de R$ 8 milhões em CBIOs distribuídos entre os cooperados, de forma proporcional à produção.
Na safra 2024/2025, a cooperativa gerou 37.824 CBIOs, negociados a R$ 26,00. Após deduções, o valor líquido resultou em R$ 0,67 por tonelada de cana, considerando uma produção total de 824.182,370 toneladas.
FORNECEDORES
A Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana), que liderou a mobilização nacional pela regulamentação, estima que o mercado de CBIOs pode alcançar até R$ 27 milhões por ano no Estado. O cálculo considera uma produção aproximada de 9 milhões de toneladas de cana de fornecedores e valores médios entre R$ 2 e R$ 3 por tonelada, conforme a cotação do crédito.
Mais do que um pagamento pontual, a efetivação dos CBIOs representa uma mudança estrutural na relação entre usinas e fornecedores, reconhecendo o produtor como parte essencial da cadeia de redução de emissões.
DE FORA
Usinas que não produzem etanol, como Coopervales (Uruba), Taquara e Camaragibe, não têm obrigatoriedade nem previsão de pagamento de CBIOs. Por isso, o número de fornecedores beneficiados no Estado deve chegar a cerca de cinco mil, de um total estimado de seis mil fornecedores.

