Cultivo
Projeto de rotação entre cana-de-açúcar e soja na entressafra avança em AL
Iniciado em 2021, consórcio mantido pela Usina Caeté em parceria com produtores de grãos traz vantagens para a cultura da cana e ganhos econômicos na produção de soja
O cultivo rotacionado de soja em áreas de cana-de-açúcar durante a entressafra pode ser uma alternativa importante para a renovação do canavial. No sul de Alagoas, a Usina Caeté, situada em São Miguel dos Campos, tem investido em um projeto de rotação de culturas, em parceria com produtores de grãos da região, desde 2021.
Iniciado com o objetivo de otimizar o uso da terra e aumentar a produtividade, o projeto tem apresentado resultados promissores desde o início, segundo a usina. Em 2021, foram utilizados 250 hectares do canavial, aproveitando até 40% das áreas destinadas à renovação do plantio de inverno da cana.
“Nos primeiros anos de experimentação, ao compararmos as rotações com a produtividade da cana convencional, observamos um ganho médio de 35 toneladas de cana por hectare, o que nos incentivou a expandir a rotação em uma escala cada vez maior”, revelou Mário Sérgio, superintendente de Operações da Usina Caeté.
O dirigente da unidade industrial também destacou a importância da rotação comercial entre as culturas. “Eu sempre digo que, quando se trata de consórcio de culturas comerciais, a soja é a melhor opção para a cana-de-açúcar em termos de produtividade. E a soja também se beneficia, pois, após a colheita mecanizada da cana, o resíduo orgânico deixado no solo favorece o crescimento e o desenvolvimento da soja como um todo”, afirmou.
“Desde que o sojicultor chegou à região, ele tem se adaptado ao ambiente, buscando melhorias no manejo, nas variedades e nas janelas de plantio. Isso tem permitido que, a cada ano, o produtor se aproxime mais da realidade local, alcançando lavouras como essa”, complementou Mário Sérgio.
Como exemplo do impacto positivo da rotação de culturas, Mário Sérgio apontou a presença de nódulos nas raízes da soja, formados pela ação de microrganismos como a bactéria rizóbio, em um processo chamado fixação biológica de nitrogênio (FBN).
“Esse processo de fixação de nitrogênio foi uma revolução para a agricultura, gerando uma economia significativa em relação ao uso de fertilizantes nitrogenados. A estrutura criada pelos rizóbios permite essa sinergia entre o nitrogênio da atmosfera e o solo, transformando-o em formas minerais que podem ser absorvidas pelas plantas”, destacou Sérgio.
O superintendente da Usina Caeté reiterou os benefícios da rotação de culturas para a qualidade do solo. “Após a colheita da soja, a presença dos rizóbios e da matéria orgânica no solo, tanto abaixo quanto acima da superfície, promove a aeração, a infiltração de água e melhora a fertilidade, favorecendo o crescimento e o desenvolvimento da próxima cultura, no nosso caso, a cana-de-açúcar”, concluiu.
Segundo o superintendente, o desenvolvimento da soja em 2026 promete ser um dos melhores dos últimos quatro anos. “Fazendo uma analogia, eu diria que este ano a soja teve o seu melhor desempenho em relação ao desenvolvimento vegetativo”, afirmou.
GANHO ECONÔMICO
De acordo com Mário Sérgio, a soja se destaca como uma opção mais vantajosa em comparação com outras culturas, como o milho e o amendoim. “O amendoim, por exemplo, exige um preparo de solo e uma colheita muito mais intensivos, o que não traz os mesmos benefícios da soja. A cultura do milho também enfrenta problemas com pragas e doenças, que são comuns à cana. Portanto, ao adotar essa rotação, conseguimos quebrar o ciclo das pragas e ervas daninhas, o que traz benefícios exponenciais para a cultura da cana-de-açúcar”, explicou.
O Brasil é o maior produtor de soja do mundo, com uma produção estimada em 169 milhões de toneladas na safra 2024/2025. O cultivo da soja ocorre em janelas de plantio diferentes em todo o país. Alagoas se destaca porque o cultivo e a colheita da soja podem ser realizados entre abril e agosto, o que difere de outras regiões do Brasil e traz elevado potencial econômico para o estado.
“Isso agrega um valor diferenciado tanto para a soja grão quanto para a soja semente. Na janela de plantio de Alagoas, a colheita da soja, se direcionada para semente, coincide exatamente com o período de plantio das principais regiões produtoras do Brasil. Isso resulta em um vigor germinativo muito interessante, o que valoriza ainda mais o produto e traz um benefício considerável para o sojicultor”, completou Mário Sérgio.
Com os resultados promissores do consórcio, produtores de outras regiões do país têm buscado a Usina para entender o conceito de plantio, revelou o agrônomo. “Sojicultores de estados como Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul têm nos procurado, interessados nessa rotação. Esse interesse, seja de sojicultores ou de empresas, é muito vantajoso para a região, pois diversifica as culturas e contribui para o aumento da renda e para a geração de empregos”, afirmou o gestor da usina.