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UM ANO SEM CACÁ DIEGUES

Cacá Diegues: um investigador poético da realidade

Um ano após sua morte, legado do cineasta alagoano permanece vivo na obra e na memória de amigos e artistas

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O cineasta e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cacá Diegues, durante sessão de fotos em sua casa, na zona sul do Rio de Janeiro
O cineasta e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cacá Diegues, durante sessão de fotos em sua casa, na zona sul do Rio de Janeiro | Foto: MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO CONTEÚDO

Um investigador poético da realidade. Desde a juventude, a busca de Cacá Diegues, cineasta alagoano que morreu há exatamente um ano, aos 84 anos, foi por autenticidade, pelas cores reais, pela síntese das coisas — sem perder o humor, a ironia, a rebeldia, a beleza. O garoto que se encantou pelo cinema logo na primeira vez que entrou em uma sala de exibição, em Maceió, não queria apenas fazer filmes, como afirmou dezenas de vezes: sonhava que o cinema invadisse a vida e transformasse a realidade.

Ao lado de Leon Hirszman, Glauber Rocha e Paulo Cesar Saraceni, fundou o Cinema Novo. Ele recordava os primeiros passos do movimento como um dia ensolarado e bonito em que cineastas brasileiros pegaram suas câmeras e saíram pelas ruas, praias e vielas, não visando Hollywood, mas as histórias de camponeses, trabalhadores, pescadores e favelados. Foi esse dia que definiu o cinema brasileiro.

A morte do alagoano, que nasceu em Maceió no dia 19 de maio de 1940, é uma perda irreparável, acalentada apenas pelo legado extenso, colorido e frutífero de um homem-cineasta que nunca desistiu da vida nem do Brasil. (Saiba mais sobre a infância de Cacá Diegues em Maceió clicando aqui).

Rio de Janeiro, 02/09/1969; retrato do cineasta alagoano Cacá Diegues
Rio de Janeiro, 02/09/1969; retrato do cineasta alagoano Cacá Diegues | Foto: Estadão Conteúdo

Cacá Diegues estreou profissionalmente como cineasta em um dos episódios de “5 Vezes Favela”, de 1962, no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE). O primeiro longa viria um ano depois. “Ganga Zumba” celebrava o levante de escravizados enquanto refletia sobre outro, desta vez popular, protagonizado pelos trabalhadores e pela esquerda da época.

Sua atuação como cineasta foi quase inteiramente apoiada em ideias antirracistas e na defesa de um Brasil protagonista — não um país ufanista, mas um país pulsante.

Dirigiu mais de 20 filmes, entre eles obras como “Bye Bye Brasil”, “Xica da Silva”, “Tieta do Agreste” e “Deus é Brasileiro”. Seu último lançamento foi “O Grande Circo Místico”, baseado no poema homônimo do também alagoano Jorge de Lima.

Cacá Diegues em cima do veículo usado no filme "Bye Bye Brasil"
Cacá Diegues em cima do veículo usado no filme "Bye Bye Brasil" | Foto: Reprodução

Cacá deixou um último trabalho pronto: “Deus Ainda é Brasileiro”, uma espécie de continuação de “Deus é Brasileiro”, filmado em Alagoas, com grande parte do elenco formada por artistas locais. Um amigo de infância de Cacá, o escritor Carlito Lima, assina o argumento do longa. De acordo com Renata Magalhães, companheira de Cacá na vida e na arte, o filme se encontra em fase final de produção e deve ser lançado ainda em 2026. A data não foi confirmada.

Cacá Diegues definiu “Deus Ainda é Brasileiro” como uma “comédia cívica”. Disse que o trabalho busca representar o povo brasileiro com dignidade e como protagonista de sua própria história. Para ele, o país tem todos os elementos para voltar a ser exemplo para a humanidade. “Cultura é uma maneira de descobrir o que o país é, e devemos nos esforçar para isso”, disse à Gazeta, em 2022.

Cacá Diegues durante gravação de "Deus Ainda é Brasileiro", filmado em Alagoas
Cacá Diegues durante gravação de "Deus Ainda é Brasileiro", filmado em Alagoas | Foto: PAULA FERNANDES

Diegues afirmou que o filme convidará o espectador a refletir sobre o atual momento político, em uma história em que Deus volta ao Brasil para tentar recuperar a esperança na humanidade.

‘Eu não desisto do Brasil’

Pouco antes de iniciar as gravações de “Deus Ainda é Brasileiro”, Cacá Diegues concedeu uma de suas últimas entrevistas à Gazeta de Alagoas. Falou sobre o que o motivava a reembarcar no universo de “Deus é Brasileiro” e deu detalhes do que pensava para o filme, que é mais um spin-off do que uma continuação do clássico de 2003.

“Não sei explicar direito por que eu quero fazer o filme. Para mim, é muito difícil explicar. Mas posso contar como é o filme. [Antes] Deus visitou um país que tinha a quinta maior economia do Ocidente, era pentacampeão mundial de futebol, e as pessoas estavam felizes. De repente, ficou todo mundo triste, desempregado, sem dinheiro. Depois que o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, o que houve? Então, vinte anos depois, Deus vem ver o que aconteceu. Essa é a ideia do filme”, detalhou, à época.

O cineasta Cacá Diegues fotografado na redação do jornal 'O Estado de S. Paulo'
O cineasta Cacá Diegues fotografado na redação do jornal 'O Estado de S. Paulo' | Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

“Deus não desistiu do Brasil porque eu ainda não desisti. No fundo, o filme é o meu interesse pelo Brasil, minha vontade de que o país dê certo. Eu não desisto do Brasil”, disse, em outro trecho da entrevista.

Quem fazia parte do círculo de amizades de Cacá Diegues e/ou trabalhava com o cineasta diz que essa insistência em viver e mudar as coisas ia do cinema para a vida, da vida para o cinema. Mesmo em momentos complicados, ostentava generosidade nas palavras e oferecia ombro, ouvidos e amizade. É isso, por exemplo, que conta o fotógrafo e cineasta alagoano Celso Brandão, cuja família mantinha amizade com os pais de Cacá.

Ele descreve a relação como a de um “primo mais velho”. Brandão cresceu ouvindo falar de Cacá, dada a proximidade entre as famílias, mas o encontro ocorreu anos depois. Nos anos 1970, Celso Brandão, então um jovem realizador em Super-8, recebeu de Cacá a proposta de ampliar seu trabalho para 35mm, gesto que profissionalizou sua carreira. O sítio da família Brandão tornou-se o refúgio de verão do diretor, onde ele recebia nomes como Arnaldo Jabor e a atriz Jeanne Moreau.

Claquete usada na gravação de "Deus Ainda é Brasileiro", último filme de Cacá Diegues
Claquete usada na gravação de "Deus Ainda é Brasileiro", último filme de Cacá Diegues | Foto: GABRIEL MOREIRA

“Sempre que vinha a Alagoas, ele ficava hospedado aqui no sítio da minha família. O lugar acabou virando um point do pessoal do cinema do Rio de Janeiro. Cacá trazia amigos cineastas, equipes inteiras passaram por aqui, e até cenas de filmes foram rodadas no sítio”, conta Brandão.

“Na última vez que ele esteve aqui, eu fiz uma longa entrevista com ele. O material ainda não está editado, nem começamos a trabalhar nele. Mas acho oportuno que esse filme venha a público”, revela.

A atriz alagoana Ivana Iza, que integra o elenco de “Deus Ainda é Brasileiro”, define a interação com o diretor como um aprendizado de delicadeza e rigor. O último encontro entre os dois ocorreu em 2022, durante as filmagens no Sertão e em Maceió. “Ter sido vista pelo seu olhar duas vezes nessa vida é privilégio divino”, diz a atriz, que carrega a influência do modo de Cacá estar no set, atento aos detalhes e ao respeito coletivo.

A atriz alagoana Ivana Iza ao lado do cineasta Cacá Diegues
A atriz alagoana Ivana Iza ao lado do cineasta Cacá Diegues | Foto: Cortesia

O sociólogo Edson Bezerra, autor de um livro sobre a estética do cineasta, aponta que a obra de Diegues carrega uma “estética de Alagoas” mesmo quando não filma explicitamente o estado, traduzindo uma mistura local de “melancolia e êxtase”. Já o ator Chico de Assis, veterano do teatro e do cinema alagoano que trabalhou nos dois filmes da franquia “Deus”, ressalta a generosidade técnica do diretor. Assis recorda que Cacá descobriu talentos e dedicava tempo à formação dos atores em cena, paciência que marcou sua passagem pelos sets do Nordeste brasileiro.

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