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UM ANO SEM CACÁ DIEGUES

Entre postais e um filme por concluir, a presença de Cacá

Uma no após a morte do diretor alagoano, Isabel Diegues e Renata Magalhães falam sobre legado e saudade

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Isabel Diegues e Renata Magalhães falam da dimensão pública e afetiva do legado deixado pelo fundador do Cinema Novo
Isabel Diegues e Renata Magalhães falam da dimensão pública e afetiva do legado deixado pelo fundador do Cinema Novo | Foto: Reprodução

Um ano de falta é muito pouco para reorganizar uma vida inteira de presença. Assim como o Brasil ainda tateia o tamanho do vácuo deixado por Cacá Diegues, cineasta alagoano que faleceu em 14 de fevereiro de 2025, a família continua a desvendar essa ausência. Isabel Diegues, filha do primeiro casamento com Nara Leão, guarda uma coleção de cartões-postais enviados pelo pai durante as filmagens pelo país. Renata Almeida Magalhães, esposa e parceira por 43 anos, conduz a finalização de “Deus Ainda é Brasileiro”, 20º longa-metragem do cineasta, rodado em Alagoas.

Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães durante a gravação de "Deus Ainda é Brasileiro", último filme do alagoano
Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães durante a gravação de "Deus Ainda é Brasileiro", último filme do alagoano | Foto: GABRIEL MOREIRA

Em entrevistas concedidas à Gazeta de Alagoas na última década, Cacá Diegues deixou evidente que não sabia — ou não fazia questão — de separar o homem do cineasta. “Faço cinema 24 horas por dia”, afirmou em 2020, ao comentar que ouvir as histórias das pessoas, algo que apreciava, já era uma maneira de fazer cinema. Isabel confirma que foi mesmo a dinâmica do cinema que marcou a vida familiar.

"Meu pai sempre foi muito dedicado ao seu cinema, um apaixonado pelo que fazia. Quando criança, fazia longas viagens, mas sempre presente, me mandava cartões postais de onde estivesse. Uma coleção que tenho até hoje", relata.

A filha Isabel Diegues ao lado do pai Cacá
A filha Isabel Diegues ao lado do pai Cacá | Foto: Reprodução/Acervo pessoal

Nos períodos em que a família não acompanhava as filmagens, os encontros eram mantidos com regularidade. “Nosso núcleo familiar sempre foi de estar muito junto, se ver toda semana, viajar juntos nas férias, mesmo depois que nós ficamos adultos e tivemos filhos, tentávamos juntar a todos em viagens onde podíamos passar alguns dias embolados e nos divertindo juntos”, lembra Isabel.

Para Renata, o último ano tem sido dedicado à conclusão do longa e à organização do acervo do diretor. “Faz um ano. A falta dele é enorme, é uma falta gigante. A gente ficou casado 43 anos, é uma vida toda. Nesse ano, eu tive que reaprender a viver sem ele, mas sempre acho que ele está pertinho de mim”, afirma.

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Da ilha de edição, onde Cacá e Renata estiveram dezenas de vezes, ela detalha o trabalho em andamento. “Eu estou agora dedicada, primeiro, a acabar o ‘Deus Ainda é Brasileiro’ e queremos, sim, acabar para lançar esse ano. Isso já é uma responsabilidade enorme para mim, mas estou trabalhando junto com o Mair Tavares, que foi editor de muitos filmes dele e era o editor do ‘Deus’. A gente está agora na ilha de edição para acabar o filme e poder ver essa obra que ele fez em Alagoas. Fora isso, estou começando a levantar os custos para restaurar os filmes dele, digitalizar para 4K, para a filmografia dele ficar resguardada”, revela.

Imagem ilustrativa da imagem Entre postais e um filme por concluir, a presença de Cacá
| Foto: Estadão Conteúdo

A dimensão pública do legado, associada ao Cinema Novo e à consolidação do cinema brasileiro moderno, é percebida pela família como parte de uma trajetória que também se refletia na vida doméstica. Isabel destaca a coerência entre posições públicas e atitudes privadas.

“Diria que o amor pelo Brasil e pela cultura brasileira são coisas que aprendi com fervor desde muito cedo, e fazem parte da minha compreensão de mundo. Não consigo separar o pai do artista, do pensador, do amante da cultura e das pessoas do Brasil”, explica.

Ela associa a filmografia do pai à formação cultural do país. O Cinema Novo e os filmes de Cacá, como “Bye Bye Brasil”, ajudaram a consolidar um “jeito” de fazer cinema.

“Um de seus legados mais importantes é esse amor pelo cinema e por seu poder transformador. É a ideia de que um povo precisa de uma cultura forte para reconhecer a si mesmo e inventar e construir seu caminho a partir de sua própria história e constituição. Revejo seus filmes com entusiasmo e me comove e fortalece ver o quanto de fato filmou e escreveu e debateu as questões do Brasil sempre com imensa integridade e entusiasmo, mesmo nos momentos mais cruéis da nossa história, tanto na ditadura com a censura e a violência, quanto quando o cinema brasileiro esteve à deriva nos anos 80 e tantas outras vezes, sempre se posicionando, com suas críticas e convicções, sem receio também de mudar de ideia e de rumo. Defendendo a democracia e a liberdade, e reafirmando tantas vezes que ‘não há democracia sem oportunidades para todos’. Meu pai era um humanista.”

Cacá Diegues ao lado do neto José Bial, que também segue a carreira de cineasta
Cacá Diegues ao lado do neto José Bial, que também segue a carreira de cineasta | Foto: GABRIEL MOREIRA

Renata situa o trabalho do marido dentro de um processo histórico que antecede o reconhecimento recente do cinema nacional. “O legado dele é que a vida dele valeu a pena. O cinema brasileiro existe, o cinema brasileiro é poderoso. Agora, com essas premiações e o Oscar do ano passado, as pessoas estão entendendo esse poder e essa potência que o cinema brasileiro sempre teve, na realidade. A gente não pode esquecer que o Cacá fez parte do Cinema Novo, que fundou o cinema moderno no Brasil. Talvez tenha sido o primeiro país não desenvolvido a ter um cinema de vanguarda ali no final dos anos 1950 e nos anos 1960, que corresponde à Nouvelle Vague francesa, ao Neorrealismo italiano, e o Brasil já estava nessa junto”, pontua.

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“Então, eu acho que a vida e a insistência do Cacá pelo cinema brasileiro valeram a pena.

O Cacá foi um pai maravilhoso, um avô carinhosíssimo e um marido... que sorte a minha de ter sido casada com ele. Uma pessoa muito amorosa, muito afetuosa, muito generosa. Isso circundava tudo: a família, os amigos e mesmo a relação dele com o cinema e com o Brasil. Eu tenho um outro aprendizado importantíssimo, que é o meu amor por Alagoas. Isso eu herdei totalmente. ‘Deus’ vai estrear esse ano, se Deus quiser. E Deus vai querer”, ressalta Renata.

Cartaz do documentário "Para Vigo Me Voy", que homenageia Cacá
Cartaz do documentário "Para Vigo Me Voy", que homenageia Cacá | Foto: Reprodução

A permanência da voz do diretor também aparece em um registro do documentário dirigido por Lirio Ferreira e Karen Harley, citado por Isabel. Para ela, isso sintetiza quem o pai foi e quem o cineasta será para sempre.

“Uma coisa me tocou recentemente, que é uma fala sua que abre o documentário: ‘A solidão a gente cura se interessando pelo outro’. Meu pai vai sempre fazer falta. A presença dele era imensa na minha vida. Mas me sinto uma pessoa de muita sorte de ter podido tê-lo ao meu lado tantos anos, por termos vivido tantas coisas juntos, convivido, partilhado, viajado, conversado sobre tantas coisas, trabalho juntos nos meus tempos de cinema. Essa experiência segue em mim, faz parte de quem eu sou.”

O diretor de Xica da Silva e Deus é Brasileiro faleceu em 14 de fevereiro de 2025, aos 84 anos. Ele teve quatro filhos, sendo dois deles frutos de seu casamento com a cantora Nara Leão, Francisco Diegues e Isabel Leão Diegues, e uma de seu relacionamento com a produtora Renata Almeida Magalhães, Flora Diegues, que faleceu em 2019. Julia Klevenhusen, filha da sua esposa Renata Almeida Magalhães com José Roberto de São Paulo, também foi reconhecida como filha pelo cineasta alagoano.

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