OS SEM LITERATURA
Livraria Novo Jardim fecha as portas e expõe crise no mercado do livro em Maceió
Após quatro anos de atividades, livraria especializada em literatura alagoana encerra operação; fundadores apontam falta de políticas públicas e de um ecossistema capaz de sustentar o setor
Por que Érika Santos e Richard Plácido resolveram abrir uma livraria? Não uma qualquer, mas uma na qual a lógica mercadológica se submetia à curadoria independente, ao encontro, à fruição. E por qual razão decidiram fazer isso em Maceió, que, em 2019, foi apontada como a capital do Brasil com o menor índice de leitores? A resposta que justifica a empreitada dos escritores parece vir do incômodo de quem procura e não acha, da fome dos que ainda acreditam que é preciso fazer alguma coisa diante da falta. Com respostas complexas, essas perguntas se juntam a outra: por que a Livraria Novo Jardim fecha as portas neste domingo (31)?
“A gente abriu a livraria pela falta. Por esse lugar que era ausente em nós, em mim e no Richard, e acho que em muita gente também em Maceió. Queríamos um lugar de agitação cultural voltado para a literatura, que não fosse exatamente aquele em que você compra o livro e vai embora, mas onde o livro se estende a sarau, roda de conversa, encontro com o autor e a autora. Tinha essa coisa de um espírito mais jovem, revolucionário, de a arte estar ali com toda a força”, diz Érika.
A falta também tinha endereço. Richard nasceu e se criou no Eustáquio Gomes e via, na região, a escassez de equipamentos culturais como uma realidade naturalizada. A primeira sede da Novo Jardim, na parte alta de Maceió, respondia a esse vazio com uma casa aberta, ou melhor, um jardim. “Nosso sonho inicial foi criar um espaço, uma espécie de ponto de cultura mesmo. Venda de livro, mas também doação, um lugar que as pessoas pudessem usar para inventar e se expressar artisticamente. Porque realmente não tinha e ainda não tem”, afirma Richard.
Dois anos depois, a livraria quase fechou pela primeira vez. O convite para ocupar uma sala no Centro Cultural Arte Pajuçara, na parte baixa, veio como tentativa de continuidade. A parceria com o espaço, conduzido por Marcos Sampaio, permitiu que a Novo Jardim ganhasse mais tempo, agora em diálogo com o cinema e com outro público.
Érika fala dessa transição e reconhece tanto a generosidade do acolhimento quanto o que se perdeu no caminho. “A gente mudou de espaço porque ia fechar. A livraria sempre esteve nesse lugar de risco. Era um risco fazer, era um risco continuar, era um risco fechar. A gente resolveu enfrentar esse risco por um tempo. Quando fomos para o Arte Pajuçara, a dinâmica mudou, porque não era o nosso território. A livraria nasce num território marcado pela falta, mas também por uma presença específica da periferia da parte alta de Maceió”, analisa a escritora. “No Arte, apesar de ter praticamente o mesmo público, você está na parte baixa, com outra dinâmica, outras opções, uma característica mais comercial. A gente sai de uma casa de literatura para um ombro amigo, e o ombro amigo não vai conseguir ser o ombro de todas as pessoas”, completa.
Até chegar à decisão de fechar as portas, a Novo Jardim acumulou mais de 20 saraus, mais de 20 lançamentos de livros, participações em duas edições da Bienal Internacional do Livro, clubes de leitura, espetáculos, apresentações musicais, exibições de filmes e debates. O número de atividades contrasta com a fragilidade do negócio. Richard diz que a livraria nunca teve lucro. De 2022 a 2026, funcionou sempre no prejuízo.
“Mesmo assim, a gente não está fechando apenas por ter prejuízo. A gente está fechando para que as editoras não tenham prejuízo por causa do nosso prejuízo e para que as pessoas que trabalham com a gente também possam receber. Chegou a um cálculo em que a gente teria que tirar dinheiro do próprio bolso, sem fim. Não há escapatória”, afirma Richard.
Érika percebeu a gravidade da situação quando a livraria também deixou de produzir prazer. Havia uma dimensão afetiva no projeto, ligada à solidariedade, ao hábito de abrir espaço, acolher pessoas, criar pontes entre artistas e leitores. Durante algum tempo, esse impulso sustentou a rotina puxada. Com o passar dos anos, a manutenção de um espaço cultural independente passou a ocupar fins de semana, viagens, descanso, convivência familiar e saúde mental.
“Sempre teve desgaste emocional e físico, mas chegou ao limite do cansaço, do esgotamento mental, que vai começando a impedir você de fazer. Eu falei para o Richard: a gente vai ter que fechar. Ele ainda tentou pensar em outras formas, mas não ia dar. Os resultados davam prazer, continuam dando, mas chegou um momento em que não tinha como sustentar”, conta.
O fechamento é visto pela escritora como uma reconfiguração, não como frase de consolo, mas como tentativa de preservar as pessoas antes que o projeto consumisse tudo ao redor. “Não se trata de um processo de desistência. A gente quer estar mais forte, mais tranquilo emocionalmente e mentalmente para fazer o que é possível, trabalhar com o que é possível. Acho que o fechamento tem esse respiro”, diz Érika Santos, acrescentando que, neste raio-x do fim, o fechamento de uma livraria tem muito a revelar sobre Maceió e sobre Alagoas.
“Vivemos um processo de humilhação”, diz Érika Santos sobre o mercado do livro em Alagoas
Por trás da exaustão individual, Érika Santos e Richard Plácido enxergam uma engrenagem maior. Ele, que pesquisa literatura no doutorado, aponta a ausência de políticas públicas permanentes como um dos fatores que impedem a formação de um sistema literário em Alagoas. A Imprensa Oficial Graciliano Ramos, por exemplo, não lança edital para a publicação de autores alagoanos desde 2019. Não há política de aquisição pública de livros de editoras independentes em Alagoas, como ocorre em outros estados. A literatura alagoana não é disciplina obrigatória nas escolas. Nas universidades, segundo ele, o tema depende mais do esforço de professores específicos do que de uma estrutura consolidada.
Para Richard, a livraria funcionou dentro de um mercado que ainda não dispõe das condições mínimas para existir como mercado. “A falta desse ecossistema afeta qualquer negócio que queira entrar nessa área. Porque como vai haver mercado sem ecossistema? Se editoras independentes tivessem o Estado ou uma prefeitura comprando exemplares, teriam suporte para lançar outros autores. Se a literatura alagoana estivesse nas escolas e nas universidades, se as editoras vendessem e tivessem lucro, as livrarias também poderiam ter lucro”, analisa.
Érika amplia o diagnóstico para a forma como o trabalho artístico costuma ser tratado. A palavra que ela usa é humilhação. Não se trata apenas da dificuldade de vender livros, mas de um ciclo em que autores, editoras, livreiros, produtores e mediadores de leitura são empurrados para uma economia de apoio pessoal, favor, insistência e precarização.
“A gente vive um processo de humilhação mesmo. Essa é a palavra. Desde a desvalorização do trabalho intelectual dos artistas até a desvalorização de quem faz a distribuição do objeto artístico. Não existe um sistema para preservar essas pessoas, esses trabalhadores. É um processo de precarização que começa em quem produz a obra e chega a quem vende. Essas pessoas não são consideradas trabalhadoras. Então como eu olho para um espaço que vende livros de pessoas vivas, produzindo intelectualmente, e digo que isso é massa? Para o nosso estado, isso não é massa. Para a nossa cidade, isso não é massa. É muito sério pensar tudo isso.”
Apesar dessa engrenagem gigantesca girando contra a literatura, a experiência da Novo Jardim contrariou uma suspeita recorrente sobre o público. O que mais surpreendeu Richard Plácido, por exemplo, não foi a dificuldade, mas a resposta das pessoas quando a literatura alagoana estava ao alcance delas. Na Bienal, leitores chegavam com listas, nomes de autores e títulos vistos em reportagens. Uma adolescente de escola estadual do interior entrou no estande dizendo que queria comprar livros de autores alagoanos para valorizar a produção do estado. Richard indicou uma obra de Danielma Reis. A autora passou por perto, foi chamada, conversou com a menina e tirou foto com ela. “Me deu vontade de chorar na frente dela”, lembra Richard. “O que mais me surpreendeu foi perceber que as pessoas amam a literatura. Se esse sistema literário estivesse pulsando, fazendo parte do dia a dia do povo alagoano, as pessoas comprariam, leriam, iriam a eventos, trocariam ideias. O povo ama a literatura alagoana, só não a conhece, só não tem acesso ao que é produzido aqui, aos autores, às autoras, às contadoras de histórias, às pessoas que fazem formação e mediação de leitura”, detalha.
Érika guarda da Bienal uma lembrança igualmente reveladora. Em vários momentos, vendeu o próprio livro sem se apresentar como autora. Richard passou por situação parecida. Leitores olhavam a capa, pediam opinião, perguntavam se valia a pena. Eles respondiam como livreiros, tentando conter a estranheza de assistir ao próprio trabalho circular diante deles. “Foi incrível essa experiência. A gente vendeu mais de 500 livros alagoanos na Bienal. Os livros das editoras de fora ficavam ali, e as pessoas estavam interessadas nos daqui. Isso fala muito”, completa Érika.
O que permanece da Novo Jardim talvez esteja menos nos números do que nas pequenas alterações que um espaço desse tipo produz em todo o meio literário e cultural da cidade. Érika usa como exemplo a experiência da própria mãe, que estudou até a terceira série do ensino fundamental e começou a ler por causa da livraria. Leu Annie Ernaux, conheceu outras autoras, ouviu coco de roda, cordel, poesia, voltou à escola e hoje tem até um Kindle. A memória apareceu na conversa com os autores como uma espécie de prova de que o projeto alcançou lugares que nenhum balanço financeiro registraria.
“Eu tenho uma felicidade muito profunda na minha vida, que é a minha mãe ter começado a ler por causa da livraria. Então a realidade muda, a gente não passa despercebido. Eu fico pensando em quantas mães, quantos filhos conseguimos alcançar com esse projeto. Isso fica. A arte vai se espalhando por onde passa. Não foi em vão. Foram quatro anos de muita construção. A gente fez muita coisa de que se orgulha.”
Richard prefere pensar na Novo Jardim dentro de uma rede de espaços irmãos, como o Arte Pajuçara, o Theatro Homerinho, a Casa Sambacaitá, o Ateliê Ambrosina e o Quintal Cultural, listados por ele. O incômodo que o acompanhava antes da livraria era perceber que a literatura quase sempre precisava pedir lugar em pautas abertas para outras linguagens. A Novo Jardim, com todas as suas limitações, criou por alguns anos um espaço próprio para isso. “O meu sonho ainda segue: que exista um espaço de literatura que consiga resistir mais. Que tenha mais bibliotecas comunitárias, que tenha ponto de cultura literário, que esses espaços sejam feitos por muitas pessoas. Que seja no Jacintinho, no Eustáquio, perto da Lagoa, no Benedito Bentes, no Jaraguá, no Litoral Norte, no Litoral Sul. Quero ver a literatura em todo canto, porque nós, alagoanos, temos amor pela literatura e por todas as expressões possíveis dela, não apenas o livro e a palavra, por tudo o que se transforma a partir disso”, afirma.
Até domingo (31), a Livraria Novo Jardim funciona no Centro Cultural Arte Pajuçara, com descontos de até 30% em todo o acervo. O fechamento da loja encerra a rotina de vendas, mas Érika diz que o nome ainda pode encontrar outras formas de existir, com outras faces. “A gente quer manter algumas atividades, fazer lançamentos, saraus. Estamos com projetos em desenvolvimento para pensar outras formas de manutenção do nome. Um selo, de repente. A Novo Jardim somos nós. Sou eu, o Richard, a Danielma, você, o Marcão, todas essas pessoas que conseguem formar esse grupo de resistência, mas também de alegria, de humanidade, de esquecer um pouco essa opressão da ordem do dia. É isso que eu guardo como memória”, finaliza.